ECONOMIA

Eleitores de Lula conformaram-se em defender a “política do puxadinho”

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Em todos os anos de governo petista, quais pautas realmente contrárias à elite foram defendidas por Lula e Dilma?

Eleitores de Lula conformaram-se em defender a “política do puxadinho”

(Foto: Divulgação/Lula Oficial/Facebook)

Publiquei dois textos aqui no Storia, nos últimos dias, sobre o papel de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2018. No primeiro (PT erra ao insistir em Lula), argumentei que os petistas (e a esquerda em geral) são vítimas de um messianismo perigoso, que impede a renovação de lideranças – algo vital para a sua sobrevivência. No segundo (Lula quer empresário como vice. Mas ele não é contra a elite?), lembrei o que cientistas políticos estão roucos de repetir: nesses moldes, Lula apenas recriará o pacto conservador que o levou ao Planalto em 2002, sem promover reformas mais estruturais de justiça social. Como era de se esperar, os textos provocaram alguma histeria em grupos de esquerda. Vou dispensar aqueles que simplesmente me xingaram (contra palavrões, não há argumentos) e me concentrar em algo já detectado pelos estudiosos: os lulistas conformaram-se em defender a “política do puxadinho”.

Explico. O que o cientista político André Singer chama de “pacto conservador” e “reforma gradual”, outros classificam como “melhorismo”. Após o fim do socialismo real, os partidos de esquerda passaram a se concentrar em pautas pontuais de melhoria das condições de trabalho, aumento de renda, participação em resultados e inclusão social. Na falta de um projeto utópico e revolucionário, dedicaram-se, segundo alguns estudiosos, a “humanizar” o capitalismo. É claro que é meritório. A vigilância da esquerda impediu que, sem o contrapeso do socialismo, o neoliberalismo que se seguiu varresse direitos e conquistas sociais como um bando de hunos.

“Pragmático”

O PT entrou na onda já com a eleição de Lula em 2002. O reformismo gradual foi, realmente, o tom de todo o governo petista. Naquela época, sempre que eu o questionava, era tratado a sapatadas pelos amigos de esquerda “esclarecidos”. Diziam-me: “Ora, política é a arte de ceder hoje para conquistar amanhã”, ou: “O que você quer? Lula é pragmático e negocia o que precisa para ganhar o essencial.” Os mais pedantes me davam aulas sobre realpolitik.

Mas eis que o tempo passa e Lula volta à cena como candidato à Presidência em 2018. Ensaia repetir a mesma aliança com o empresariado e, em grupos de esquerda fechados no Facebook, começam a me chamar de burro, ignorante, direitista, fdp etc., porque disse que ele repetirá o mesmo erro de 2002: selar um pacto conservador e entreter as pessoas com a ampliação de crédito, como se a melhoria concreta das condições de vida se limitasse apenas a comprar uma TV nova e trocar de carro.

Discuta com o Boulos

Mas, se eu não sou digno de criticar ninguém (afinal, sou um "zé-ninguém"), recomendo que o pessoal da esquerda olhe o que os caras que admira dizem. Guilherme Boulos, líder do MTST, por exemplo, no livro A Crise das Esquerdas (Ed. Civilização Brasileira). Sobre o lulismo, eis o que ele diz (pág. 143 e 144):

“Quando Lula tinha 85% de popularidade, uma hegemonia importante, havia espaço para colocar em pauta temas como reforma do sistema político, a democratização das comunicações, colocar temas tributários... Era preciso abrir mão do pacto conservador e construir um novo pacto socialmente sustentado. Optou-se por manter o pacto conservador, talvez com a ilusão de que isso fosse indefinidamente garantido, ou seja, não se via fim nesse processo. Tinham inventado a roda: ‘encontramos uma forma de manter a hegemonia política na sociedade brasileira porque estamos agradando a todos.’ Sentaram-se à mesa da casa-grande e acreditaram que o convite para o banquete não teria fim, uma ilusão de que a burguesia brasileira tinha engolido e digerido muito bem o projeto petista, de que não haveria problemas.”

De que esquerda você é?

É esta ilusão que vejo em vários comentários aos textos que publiquei e compartilhei nos grupos do Facebook. Via de regra, os defensores de Lula dividem-se entre os que afirmam que ele fez o possível, no cenário político da época, e os que dizem que “há elites e elites” – umas conservadoras, outras progressistas. Particularmente, acredito que há, sim, duas elites: as que toleram a esquerda, enquanto não mexe em seus privilégios; e as que nem querem correr o risco de vê-la no poder.

Sendo franco, responda-me, caro leitor: em todos esses anos de governo do PT, por exemplo, você viu o presidente defender enfaticamente a cobrança de imposto sobre herança? Mexer na estrutura vexatória de juros dos bancos? Ou simplesmente reajustar a tabela do Imposto de Renda, para que os mais pobres não arquem com os mesmos custos tributários que os mais ricos? Sinceramente... de que esquerda você é????