CIÊNCIA

Escola é lugar de se ensinar tolerância, não religião

Márcio Juliboni
Author
Márcio Juliboni

Por trás do ensino religioso confessional, está uma confissão de incompetência: as igrejas já não conseguem atrair os jovens do modo tradicional

Escola é lugar de se ensinar tolerância, não religião

(Foto: Márcio Juliboni)

Mais uma vez, o Brasil fez a mágica de estragar uma ideia boa. A vítima da vez é a liberdade religiosa, um princípio importante num Estado que se diz laico, isto é, que não possui religião oficial. Por 6 votos a 5, o STF rejeitou uma ação da Procuradoria-Geral da União, e liberou o ensino religioso confessional em escolas públicas. Com isso, os alunos passarão a ter aulas com professores que, assumidamente, seguem determinada crença. As entidades eclesiásticas comemoraram, com o argumento de que não se pode tirar, do aluno, o direito de aprofundar os conhecimentos em sua fé. E é aí que o bicho pega. Quem disse que a escola é lugar para isso?

O argumento de que fé se ensina do mesmo jeito que matemática e português é cheio de buracos. O primeiro, e mais gritante, é que há lugares em que se pode conhecer e cultivar uma crença com total liberdade e apoio: as igrejas, os templos, os terreiros etc. Se o aluno já sabe qual é a sua crença e tem dúvidas ou curiosidades sobre ela, nada melhor do que frequentar o catecismo, a crisma e a missa, no caso dos católicos, ou os cultos, no caso dos evangélicos e das religiões afro-brasileiras. Ler, ouvir, praticar seus ensinamentos e conversar com seus guias espirituais. Frequentar seus grupos de estudo. Engajar-se na comunidade que comunga de sua fé. É simples, gratificante e acolhedor.

Por trás da proposta, está implícita uma confissão de incompetência. As religiões, de um modo geral, simplesmente não falam mais a língua dos jovens e, portanto, são incapazes de atrair fieis. Neil Gaiman, o criador da cultuada série de graphic novel Sandman, foi muito feliz, quando escreveu que “os deuses morrem por falta de preces”. Seria possível acrescentar: e as igrejas fecham por falta de dízimos. Arrebanhar almas, para um padre ou um pastor, não é apenas uma missão sagrada. É questão de fechar as contas no fim do mês. É por isso que os críticos da decisão do STF afirmam que o ensino confessional, nas escolas, servirá, na prática, para arregimentar novos seguidores. Algo que as entidades religiosas negam, mas que não pode ser descartado a priori.

Vitrine do mundo

Para a maioria das pessoas, a escola é o primeiro lugar em que entram em contato com ideias diferentes das suas. Aprendem, na prática, que nem todos pensam, se vestem ou se comportam como elas. É uma representação, em miniatura, da sociedade. Os problemas de adaptação a esse universo – do bullying à violência, passando por intolerâncias em geral – também são um ensaio geral do que se encontrará lá fora. Por isso, a missão da escola não é apenas fazer o melhor “download” possível de disciplinas como Física, Química e História na cabeça dos alunos; é, também, ensinar os jovens a lidar com as diferenças, a compreendê-las e respeitá-las. Isso vale tanto para as diversas tribos (nerds, esportistas etc.), quanto para as religiões.

O ensino religioso, nas escolas, deveria ser ecumênico, para que os estudantes conhecessem diferenças e semelhanças entre os credos. O ideal seria promover mesas-redondas, seminários e debates em que representantes de várias religiões, lado a lado, falassem do que acreditam e de como construir um mundo melhor e plural. A decisão do STF vai na contramão do que o Brasil e o mundo precisam: incentiva os alunos a se fecharem em bolhas ungidas por sua própria fé, em vez de abençoá-los com uma visão mais ampla do mundo. Com isso, em vez de garantir a liberdade religiosa, dá espaço para mais sectarismo e incompreensão.