ECONOMIA

Esqueça o Banco Central; os juros que deveriam cair são os do seu cartão

Márcio Juliboni
Yazar
Márcio Juliboni

Corte da Selic, anunciada nesta quarta, não significará rigorosamente nada para os brasileiros

Esqueça o Banco Central; os juros que deveriam cair são os do seu cartão

(Foto: Grafite de Banksy)

Nesta quarta-feira (26), o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) anunciou mais um corte na taxa básica de juros, a famosa Selic. Com a economia destroçada por dois anos de recessão, elevado desemprego e inflação abaixo da meta, praticamente todas as videntes do Viaduto do Chá e todos os analistas da Faria Lima já esperavam o resultado: um corte de um ponto percentual. Assim, a Selic recuou para 9,25% ao ano. É a primeira vez, em quatro anos, que temos juros básicos de um dígito. Mas, o que isso quer dizer para você, na prática? A resposta: rigorosamente nada.

A Selic é uma referência para o mercado, mas pesa muito pouco nos juros que você paga no dia a dia. Do financiamento imobiliário ao cartão de crédito, passando pela compra da geladeira e do carro, você está careca de saber que as taxas são muito, mas muito, mas pornograficamente muito maiores. Exemplos? Basta ver a tabela abaixo, elaborada pela Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade) com a taxa média de juros cobrada pelo mercado dos consumidores (as famosas pessoas físicas) no mês passado. Diga-me: em qual coluna, pagamos algo como 9,25% ao ano para alguém?

Esqueça o Banco Central; os juros que deveriam cair são os do seu cartão

(Tabela elaborada pela Anefac)

Mas há outro dado revelador. No mesmo relatório, a Anefac aponta que, entre março de 2013, quando começou o último ciclo de aumentos da Selic, e junho passado, a taxa básica de juros do BC subiu 3 pontos percentuais (de 7,25% para 10,25%). No mesmo intervalo, os gentis banqueiros encareceram o crédito ao consumidor em 53,96 pontos (de aviltantes 87,97% para zombeteiros 141,93%). Resumindo: para cada 1 ponto percentual de alta da Selic pelo BC, os bancos nos cobraram 17,98 pontos a mais pelo dinheiro que nos emprestam.

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O que justifica isso? O lenga-lenga dos bancos é conhecido. Os juros altos são um misto de elevada inadimplência, taxas e impostos, burocracia, custos de oportunidade, incertezas políticas e econômicas, câmbio etc. É verdade: o governo brasileiro atrapalha qualquer cristão. Chegamos às raias da loucura, sempre que lidamos com impostos e burocratas. Mas nada disso justifica uma diferença tão gritante entre o que os banqueiros pagam pelo dinheiro que pegam (a Selic) e o que eles nos cobram pelo que emprestam (os juros à pessoa física).

Aliás, duas coisas justificam. Primeira: a extrema concentração do sistema financeiro nacional. Segundo reportagem do G1 de abril, os quatro maiores bancos brasileiros dominavam, no fim de 2016, 80% do mercado de crédito. Palmas para o Itaú, Bradesco, Banco do Brasil e Caixa!

O que nos leva à segunda razão por que os juros são tão altos no país: a absoluta falta de vontade do governo de combater essa concentração. Candidatos de direita, de esquerda e de centro adoram subir no palanque e desancar de pau os banqueiros. Dá votos. Dilma Rousseff chegou a veicular, durante a campanha pela reeleição, a pungente propaganda em que uma família via a comida sumir dia a dia do prato, enquanto banqueiros enriqueciam. Como já escrevi neste mesmo espaço, o fato é que nem Fernando Henrique Cardoso, nem Luiz Inácio Lula da Silva e nem Dilma tiveram a coragem de abrir o setor de serviços financeiros e promover maior concorrência. Michel Temer, mais preocupado em se segurar na cadeira de presidente do que em governar, tampouco está fazendo alguma coisa. Nas próximas eleições, como de praxe, todos aparecerão na TV e nos palanques gritando contra os juros altos. Balela. No escurinho dos encontros privados com os banqueiros, falarão mansinho como sempre.

(atualizado às 19h com a decisão do Copom)