ECONOMIA

EUA, Alemanha, Brasil... as democracias estão se suicidando?

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Países brincam de roleta-russa com o autoritarismo a cada eleição, mas é possível parar a tempo

EUA, Alemanha, Brasil... as democracias estão se suicidando?

(Imagem: Euronews/Reprodução/YouTube)

Dois fatos deste fim de semana ainda repercutem pela imprensa nesta segunda-feira (25). O primeiro é o confronto entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e os jogadores da NFL, a liga de futebol americano. Na maioria dos jogos, os atletas protestaram contra o racismo mais ou menos descarado dos eleitores de Trump. Em troca, o republicano disparou uma saraivada de tuítes exigindo que os clubes demitissem quem se manifestou. Seu argumento era de que não se tratava de um ato contra a discriminação racial, mas de uma afronta à bandeira americana. O segundo episódio foi o avanço da extrema-direita na Alemanha. Pela primeira vez, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, um partido neonazista ocupará acentos no parlamento alemão. E não serão poucos: a AfD (Alternativa para a Alemanha) ficou com 94 cadeiras, formando a terceira maior bancada.

A grande contradição disso tudo é que o avanço do obscurantismo político ocorreu por vias democráticas, tanto nos Estados Unidos, quanto na Alemanha. Também passou raspando nas eleições francesas, quando Marine Le Pen deixou a Europa e o mundo de cabelos em pé, antes de ser derrotada por Emmanuel Macron. A maioria dos analistas políticos concorda que, se Macron não fizer um bom governo (e parece que não está), Le Pen tem tudo para dar o troco em 2022. Diante de tudo isso, a dúvida é: as democracias são suicidas? Ou, pelo menos, as democracias atuais arriscam se matar?

Parece, mas não é

Para o cientista político Giovanni Sartori, um dos maiores especialistas em democracia do mundo, o primeiro erro é supor que todas as democracias sejam iguais. O segundo, mais grave, é acreditar que todos os governos que se dizem democráticos o sejam, de fato (basta ver no que se transformou a Venezuela). Para Sartori, vivemos numa era de “democracia confusa”, em que a mesma palavra é capaz de designar sistemas completamente opostos. Além disso, esse é o único sistema, segundo Sartori, em que realidade e ideal se relacionam intimamente. A democracia é, ao mesmo tempo, uma experiência real (votamos, criamos leis, depomos presidentes etc.) e um ideal (sempre buscamos melhorá-la, incorporando mais gente).

Mas o principal problema é tão antigo, quanto a própria ideia de democracia. Trata-se do risco de “tirania da maioria versus o direito da minoria”. Desde que os gregos se reuniam nas praças das cidades-Estados até hoje, esse é o equilíbrio mais delicado do sistema democrático. Um sistema verdadeiramente aberto deve garantir o direito de oposição. Não é à toa que a liberdade de expressão é tão cara aos americanos, por exemplo. A maioria não pode, simplesmente, esmagar e calar a minoria, e esta é uma preocupação desde os tempos de Aristóteles, passando pelos constitucionalistas americanos.

Entre a vida e o voto

Mas o que fazer, quando os eleitores dão 13% das cadeiras do parlamento alemão a neonazistas? Ou quando Trump é eleito presidente e choca até mesmo republicanos? No livro “A Teoria da Democracia Revisitada” (Ed. Ática), Sartori dá uma dica: não podemos ser reducionistas. A democracia eleitoral é apenas um processo de seleção de representantes. Há outros tipos de democracia. Uma delas é a democracia social, que não deve ser confundida com social democracia. Segundo o cientista político, sua principal característica é a ideia de que nenhum homem vale menos que outro. Isso é bastante diferente de afirmar que cada homem vale um voto. O que a democracia social defende é que cada pessoa deve merecer a mesma dignidade de vida que as demais. Quando o governo se esquece desse princípio básico, os ignorados encontram meios de serem ouvidos.

Um deles é eleger representantes, por mais horripilantes que sejam. Não é por acaso, portanto, que Trump foi eleito, sobretudo, com votos de uma classe média masculina branca, de ensino médio, moradora dos rincões dos Estados Unidos. Esse foi o grupo que mais perdeu na era globalizada de Barack Obama (ou, pelo menos, diz que perdeu). Não é gratuito, também, que o avanço dos neonazistas alemães foi sustentado pelos Estados da ex-Alemanha Oriental. Desde a reunificação, trata-se da parcela mais pobre do país e, por isso, a que se enfurece mais com a disputa de vagas com imigrantes acolhidos por Angela Merkel.

As democracias estão, portanto, se suicidando? Ainda não, mas correm o risco. Se os países se acomodarem com a visão simplista de que democracia é apenas um sistema eleitoral, brincarão de roleta russa a cada pleito – e, um dia, a bala será disparada contra a própria cabeça. Mas, se compreenderem que a democracia também envolve outras dimensões, como um esforço deliberado para melhorar as condições de vida de todos, aliviando ao máximo o impacto de mudanças demográficas, tecnológicas e econômicas, talvez haja esperança. A exclusão social gera tanto radicais muçulmanos prontos a se explodirem em metrôs da Europa, quanto militantes da Klu Klux Klan, ou neonazistas alemães.

Votar é um ponto fundamental da democracia, mas não é o único. Sentir-se inserido na sociedade é a melhor forma de evitar que uma parte da população se revolte e escolha, democraticamente, escolher um governo autoritário para se fazer ouvir. É claro que isso vale para o Brasil de 2018.