LAVA JATO

Exército no Rio: até quando o Brasil fará remendos na segurança?

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Criminalidade só será reduzida, quando a classe média “esperta” parar de financiar o tráfico apenas para “curtir a vida loka”

Exército no Rio: até quando o Brasil fará remendos na segurança?

(Foto: Tânia Rêgo/ Agência Brasil)

O decreto de Michel Temer que autoriza a atuação do Exército no Rio de Janeiro, anunciado nesta sexta-feira (28), é a gambiarra mais espalhafatosa adotada pelo governo até agora e já rende imagens impactantes nos noticiários e nos sites. Mas, por mais urgente que seja acabar com a situação de terra de ninguém em que o Rio se encontra, com balas perdidas matando crianças em escolas e quintais, e por mais que os cariocas e fluminenses em geral não aguentem mais (com toda a justíssima razão) tamanha violência, não se pode festejar a presença do Exército nas ruas. Pelo contrário: ele é o exemplo mais claro da falência do Estado (e dos brasileiros, como sociedade) em cuidar da segurança pública.

Aqui vão algumas rápidas considerações. Primeiro, vamos à questão central: a vergonhosa conivência de parte dos políticos, juízes, advogados, policiais e atravessadores de todos os tipos com o crime organizado. Há todo um ecossistema de parasitas ganhando com a ilegalidade - e parasitas que gozam não apenas de poder de fogo, mas também de poder financeiro, judicial, político, institucional. A imprensa está rouca de denunciar políticos financiados pelo narcotráfico; narcocorruptos no sistema penitenciário e judicial; milícias policiais aliadas a chefões de morros etc.

É vital, é fundamental, é urgente que esses figurões sejam localizados e punidos. Não é de hoje que os cariocas sabem que os verdadeiros barões do tráfico moram no “asfalto” e não no morro. Gerentes de boca são mortos ou substituídos com frequência, mas os poderosos permanecem nas sombras. É preciso desentocá-los e prendê-los.

Aí, entra o segundo motivo para que a atuação do Exército seja relativizada: a falta de recursos para investir em segurança. Vivemos, nesse aspecto, uma tempestade perfeita. De um lado, narcopoderosos sabotam políticas públicas de segurança por meio do bloqueio de recursos. De outro, aqueles realmente empenhados em salvar vidas e cuidar da população carecem de tudo: dinheiro, equipamentos, suporte de inteligência, bons salários etc. Traduzindo: há os corruptos que falam muito, mas só passam na boca para pegar as férias do dia, e há os honestos que sequer têm gasolina na viatura para fazer sua ronda. Essa situação pode ser extrapolada para toda a hierarquia policial, executiva, legislativa, judicial, social, entre outras.

O quanto você é cúmplice?

O maior exemplo de que o Exército é apenas um esparadrapo camuflado é o que ocorreu na Copa de 2014 e na Olimpíada de 2016. As Forças Armadas podem inibir a atuação explícita dos criminosos, mas não os eliminam. Depois que elas se retiraram do Rio, foi apenas uma questão de tempo para que eles voltassem a circular. Neste sentido, o Exército corre o sério risco de se tornar refém da criminalidade e da violência, e não parte da solução.

Além disso, o Rio é um estuário em que desemboca toda uma estrutura criminosa: as armas são contrabandeadas pelas nossas fronteiras; as drogas, idem; o dinheiro é lavado em empresas de fachada no Brasil e no exterior; as ordens partem de presídios sem as mínimas condições de silenciá-las... mas há o outro lado: só há oferta, quando há demanda. Neste ponto, estou com o filme Tropa de Elite, de José Padilha. Quem financia tudo isso é a "esperta" classe média que só quer tirar um sarro e curtir a "vida loka". Quem financia tudo isso é você, “mermão”. E nada disso será resolvido pelos soldados a postos nas esquinas cariocas.