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Geraldo Alckmin será um tucano com voo de galinha?

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Virtual candidato do PSDB ao Planalto, Alckmin precisa convencer os eleitores de que o PSDB mudou mesmo - e para melhor

Geraldo Alckmin será um tucano com voo de galinha?

É só pose? Por ora, Alckmin tem apenas palavras no papel (Foto: Divulgação/Facebook)

A semana mal começou e a política já rendeu duas grandes manchetes: o apresentador Luciano Huck negando, publicamente, que concorrerá à Presidência, e a consolidação do poder de Geraldo Alckmin no PSDB. Mineiramente, o governador paulista deixou que as duas principais alas tucanas (os “cabeças pretas” e os “cabeças brancas”) se digladiassem até perceberem que a guerra interna não renderia vencedores, apenas vencidos. E mais: já estava muito feia essa lavação de roupa suja diante dos eleitores. Manobrou, então, para ser aclamado por unanimidade o próximo presidente do partido, na convenção marcada para o início de dezembro. Quem observa de fora afirma que isso praticamente chancela Alckmin como o candidato do PSDB ao Planalto no ano que vem. Mas, entre a candidatura e a consagração nas urnas, há uma diferença imensa. Alckmin ainda corre o risco de ser um tucano com voo de galinha.

Há muito a ser feito, se Alckmin realmente quer vestir a faixa presidencial em 1º de janeiro de 2019: unificar o PSDB, fechar alianças, tornar-se conhecido pelo Brasil, decidir se os tucanos ficam ou saem do governo Temer etc. Para que tudo isso se resolva, é preciso, entretanto, enfrentar duas questões vitais. A primeira, claro, é o que o PSDB quer ser a partir de agora? Qual será seu discurso? Qual será seu “público-alvo”? Parte da resposta começou a ser dada nesta terça-feira (28), com a publicação de uma nova declaração de princípios, batizada de “Gente em primeiro lugar: o Brasil que queremos.” Em linhas gerais, percebe-se um blend de sabores já tradicionais da culinária intelectual tucana, como a defesa do parlamentarismo e das concessões e privatizações, com um leve aroma da esquerda, ao defender, por exemplo, o fim da gratuidade do ensino público superior para os mais ricos.

Convence?

O que nos leva à segunda questão: os eleitores realmente acreditarão que o partido fará o que acabou de escrever no novo documento? Afinal, os brasileiros estão vacinados contra transformações repentinas de candidatos em defensores incondicionais do povo em períodos de campanha. Há quem diga que a mudança visa a atrair o eleitorado de centro-esquerda, órfão do lulopetismo e descrente de alternativas como a ex-senadora e fundadora da Rede Marina Silva. Ontem, durante um evento da Veja em São Paulo, Alckmin minimizou a guerra interna do PSDB, ao dizer que os eleitores votarão em pessoas, não em partidos. Com isso, pretende se colocar acima das picuinhas de correligionários e apostar em sua trajetória como governador paulista.

Há muitos buracos nesse raciocínio, claro. Primeiro: petistas e tucanos viveram às turras nos últimos 20 anos. Dificilmente, alguém que votou em Lula apoiará agora Alckmin. Segundo, historicamente, o PSDB vive uma crise de identidade. Para a direita mais pura, o partido sempre foi de esquerda. Já para a esquerda mais pura, ele é um exemplar representante do neoliberalismo.

Por isso, a pergunta de um milhão de votos é: qual será o desenho do centro nessa eleição? Se ele for como o fundo de um prato de sopa, para onde convergirá a maioria dos brasileiros, deixando os eleitores de Lula e Bolsonaro nas bordas, então talvez Alckmin tenha alguma chance. É óbvio que o pressuposto é que não apareça outro candidato de centro, literalmente, metendo a colher nessa “sopa” do governador de São Paulo. Agora, se o centro for como a estreita cumeeira de um telhado, servindo apenas para dividi-lo, então o tucano pode até posar nele, mas não terá base suficiente para chegar à Presidência. Tudo dependerá do grau de polarização que Lula (ou o candidato que eventualmente herdar o papel de porta-voz da esquerda) e Bolsonaro imprimirem à disputa.