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“Homens mansos e frouxos”: o machismo de Gleisi Hoffmann para salvar Lula

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Embora encampe a defesa do feminismo e do movimento LGBT, Gleisi revela apenas uma coisa: para ela, o PT não é lugar para “mulherzinhas”

“Homens mansos e frouxos”: o machismo de Gleisi Hoffmann para salvar Lula

"Aquilo roxo": censura de Gleisi a petistas é uma apologia ao falo (Foto: Ricardo Stuckert)

Em tempos de luta pelo empoderamento feminino e combate ao assédio sexual, a presidente nacional do PT e senadora Gleisi Hoffmann nos lembra de que uma mulher pode ser tão ou mais machista que o mais convicto eleitor de Jair Bolsonaro. Nos últimos dias, ela se especializou em queimar o próprio filme, com declarações polêmicas e belicistas. Tudo começou, como você já deve saber, quando afirmou, em entrevista ao site Poder360, que seria necessário “matar gente” para que Luiz Inácio Lula da Silva fosse preso na próxima semana, após uma eventual condenação em segunda instância. A declaração foi criticada por colegas de partido, como o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, e pelo deputado federal Carlos Zarattini, que tentaram desfazer a (péssima) impressão de que o PT tocará fogo em Porto Alegre no dia 24. Contrariada, Gleisi voltou à carga e atacou a “mansidão e frouxidão dos homens do PT”. Só faltou ela dizer que nenhum deles honra as calças que veste, ou o que balança no meio de suas pernas.

Por que é um caso claro e escarrado de machismo? Primeiro, porque ela atribui a “mansidão e frouxidão” a um gênero específico (os “homens do PT”). Segundo, porque o faz como censura. Uma coisa é Gleisi criticar a “mansidão e frouxidão” dos militantes em geral, dos petistas como um todo, sem distinção de gênero. Afinal, a falta de ênfase na defesa de Lula pode vir de qualquer um – homem, mulher, cis, trans, queer, binário, não binário etc. Se ela está insatisfeita com a apatia de certos grupos petistas acerca do julgamento de Lula, o mais correto seria passar um pito geral. Mas ela se dirigiu especificamente aos “homens”.

“Honre as calças!”

E por quê? A “mansidão” e a “frouxidão” só ganham uma conotação negativa, de censura ao comportamento de seus companheiros, porque embute o pressuposto de que essas não seriam características de verdadeiros homens. “Homem”, por essa concepção, é o oposto disso: “ativo” e “firme”. Logo, o sujeito-macho, segundo Gleisi, é aquele que não foge da briga, que vai para a guerra, que não amarela, que não se intimida, que ameaça, que estufa o peito para espantar o adversário, que está disposto a morrer por Lula, como ela mesma disse ao Poder360. Por esses atributos, nos últimos dias, o único homem do PT é o também senador Lindbergh Farias. Em um vídeo recente, ele faz coro ao tom agressivo de Gleisi e defende “uma nova esquerda, pronta para o enfrentamento e lutas de rua e não uma esquerda frouxa.”

Apenas para completar o raciocínio, deve-se lembrar que, culturalmente, um “homem frouxo” é malvisto, porque alude a outra “frouxidão”. A falta de firmeza de seu caráter ou a incapacidade de sustentar suas posições diante de adversários poderia receber outros adjetivos: covarde e indeciso, por exemplo. O “frouxo” só é capaz de desqualificar um homem, porque remete àquilo que você, com certeza, já adivinhou: a incapacidade de ter uma ereção completa e satisfatória, ou a total impotência. Em bom português: trata-se do “meia-bomba” e do “broxa”. A partir disso, as conotações foram se expandindo para outras áreas, como a política, a guerra, o caráter.

Há uma última consideração. Gleisi se sentiu à vontade de atacar os homens “mansos e frouxos” do partido, porque supostamente encontrou, por contraste, em outras pessoas os atributos de firmeza e coragem que buscava: sim, as mulheres. Cada vez mais empoderadas e ativas, as mulheres passam a encarnar agora o polo ativo que antes era ocupado pelos homens. Até aí, não há nada de errado: é merecido e ainda há muito para elas conquistarem. Porém, o paradoxo lamentável é que, ao contrastar a passividade masculina e a atividade feminina dos membros do PT, a partir de seu próprio ponto de vista (uma mulher na presidência do partido), ela apenas endossa outro preconceito que é o espelho do “homem frouxo” – o da “mulher macho”. Ou, nas palavras do próprio Lula, aquelas que têm “o grelo duro”. Embora encampem a defesa das mulheres e do movimento LGBT, no fundo, as palavras de Lula, Gleisi e Lindbergh revelam apenas uma coisa: para eles, o PT não é um partido para “mulherzinhas” – tenham elas vagina ou pênis.