CONGRESSO

Impeachment de Gilmar Mendes: faxina no STF ou só outro bode expiatório?

Márcio Juliboni
Author
Márcio Juliboni

Abaixo-assinado online contra ministro não significa que o ímpeto dos brasileiros contra a falta de ética voltou

Impeachment de Gilmar Mendes: faxina no STF ou só outro bode expiatório?

(Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil)

A paciência dos brasileiros com o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), chegou ao limite. Um abaixo-assinado virtual, iniciado pelo advogado José Luiz Maffei na última sexta (18), pretende reunir 1 milhão de apoiadores para pedir o impeachment de Mendes. O documento, que já conta com quase 750 mil assinaturas, deve ser entregue ao senador Álvaro Dias, do Podemos. Isto porque, pela lei, o Senado é o responsável pelo eventual afastamento de ministros do STF. Os protestos, contudo, não se limitam à internet. Nesta segunda-feira (21), Mendes foi vaiado em um evento promovido pelo Estadão. Um manifestante que pretendia atingi-lo com um tomate foi detido. A dúvida é se toda essa indignação representa um legítimo desejo de faxina no STF, ou é apenas fogo de palha?

Não é de hoje que Mendes azeda o humor de colegas do Judiciário. Ele ingressou na carreira pública via Ministério Público Federal, mas começou a chamar a atenção, mesmo, quando se tornou um dos membros da tropa de choque de Fernando Collor de Mello, o então presidente da República que lutava para não sofrer um impeachment. Sua ligação com os tucanos também foi proveitosa. Mendes foi subchefe de assuntos jurídicos da Casa Civil e advogado-geral da União, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Indicado em abril de 2002 por FHC para o STF, Mendes abriu mão de se filiar ao PSDB do Mato Grosso, pelo qual pretendia disputar as eleições de outubro daquele ano.

Metralhadora

Desde então, seu estilo curto e grosso causou choques com seus colegas de corte, magistrados em geral e, agora, com os brasileiros. À medida que a Lava Jato avança sobre o PMDB e o PSDB, Mendes eleva os ataques à força-tarefa. Já afirmou que Rodrigo Janot foi o pior procurador-geral da República. Já chamou Sérgio Moro e Deltan Dallagnol de cretinos, por proporem as dez medidas contra a corrupção...

Sua mais recente proeza foi libertar, na sexta-feira (18), o empresário Jacob Barata Filho, que estava preso desde julho, quando a Operação Ponto Final, um desdobramento da Lava Jato, apurou um esquema de corrupção no sistema de transporte público do Rio de Janeiro. A prisão fora determinada pelo juiz Marcelo Bretas, responsável pelo braço fluminense da Lava Jato. O habeas corpus, por si só, já causou revolta de quem acompanha o caso, mas o que mais chocou as pessoas, em geral, foram os vínculos de amizade entre Mendes e Barata Filho, revelados após o episódio. O ministro é padrinho de casamento da filha do empresário. A esposa de Mendes, Guiomar, trabalha no escritório Sérgio Bermudes, que defende Barata Filho. Como se não bastasse, o celular do empresário apreendido pela Polícia Federal contém o número de Guiomar.

Tô nem aí...

Confrontado com tantos fatos, Mendes limitou-se a tentar intimidar os jornalistas com uma pergunta que soa a escárnio: “Vocês acham que ser padrinho de casamento impede alguém de julgar um caso? Vocês acham que isso é relação íntima, como a lei diz? Não precisa responder.” Em um país sério, impede. É compreensível, portanto, que a população esteja cansada de Mendes e queira vê-lo longe do STF.

O problema, porém, é se essa indignação representa um legítimo desejo de renovação na Corte máxima do país, ou se Mendes é apenas o bode expiatório da vez. Considerando-se o silêncio das ruas, nos últimos meses, diante de tantas estripulias em Brasília (o arquivamento do pedido de impeachment de Michel Temer, a aprovação de um fundo de campanha de R$ 3,6 bilhões e do distritão, o aumento de impostos sobre combustíveis etc), a conclusão é pessimista.

Os militantes de Facebook, comodamente instalados em suas casas, até pedirão a saída de Mendes no abaixo-assinado online. Até reclamarão nas redes, quando o Senado arquivá-lo. Mas estão cada vez menos interessados em protestar de verdade contra a reação obscurantista que ameaça a Lava Jato e a faxina geral na política. Vão se limitar ao óbvio: escolher, depois, outro bode expiatório para xingar. De preferência, escondendo-se por trás de um perfil falso na web.