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Inflação que “depende” do governo foi três vezes maior que a oficial em 2017

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Combustíveis e tarifas de água, luz e ônibus mostram que, quando depende do governo, a inflação é bem outra

Inflação que “depende” do governo foi três vezes maior que a oficial em 2017

História antiga: inflação de preços públicos pesa mais (Foto: Divulgação/Agência Petrobras)

Sites, comentaristas de TV e economistas comemoram, nesta quarta-feira (10), a menor inflação já registrada no Brasil, desde que o sistema de metas foi criado nos anos 90. Segundo o IBGE, o índice oficial do governo, o famoso IPCA, fechou 2017 em 2,95%. É bem menos que os 6,29% acumulados no ano retrasado, mas, sobretudo, é a primeira vez que o indicador ficou abaixo do piso da meta, que era de 3%. O governo, claro, está soltando rojões de alegria. A esta altura do campeonato, qualquer boa notícia é vital para o presidente Michel Temer, além de impulsionar os sonhos de seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, de sucedê-lo no Planalto a partir de janeiro de 2019. O que nem a imprensa, nem os economistas e, muito menos, o governo destacaram até agora é que, ironicamente, a inflação que “depende” do poder público, conhecida como preços monitorados, foi o triplo do IPCA. Em números, subiram, em média, 7,99%.

Inflação que “depende” do governo foi três vezes maior que a oficial em 2017

Preços monitorados envolvem produtos e serviços cujo reajuste é determinado ou autorizado pelo poder público, seja federal, estadual ou municipal. Entre os campões de alta, estão o botijão de gás (16%), gás encanado (11,04%) e gasolina (10,32%). Outros itens que pesaram bem mais do que a inflação oficial foram as tarifas de água e esgoto, que subiram 10,52%; energia elétrica residencial, 10,35%, e os planos de saúde, com 13,53%. O aumento de alguns serviços públicos ficou abaixo da média dos preços administrados, mas superaram o IPCA. É o caso do ônibus urbano, com 4,04%, dos produtos farmacêuticos, com 4,44%, e dos ônibus intermunicipais, com 6,84%. O que há em comum entre todos eles? Em linhas gerais, trata-se de setores monopolizados ou oligopolizados, seja sob controle de estatais, seja pelo regime de concessões públicas, com exceção da indústria farmacêutica. Em bom português: não há concorrência suficiente e, portanto, o consumidor não pode escolher de quem comprar tal serviço ou produto.

Caros e ruins

Outro agravante é que, ao mesmo tempo em que pesam cada vez mais no bolso dos brasileiros, os serviços públicos são de péssima qualidade. Basta andar num ônibus, metrô ou trem para ir ou voltar do trabalho para constatar essa obviedade. Quanto aos planos de saúde, o reajuste abusivo é uma dupla penalidade: reflete a falência do poder público em oferecer saúde de qualidade para os cidadãos, e cria uma tremenda desigualdade entre os que podem e os que não podem pagar por atendimento médico – sendo que, entre os que têm dinheiro para tanto, também há recorrentes queixas de abuso das operadoras dos planos.

Com tudo isso, houve muito pouco mérito do governo em controlar a inflação no ano passado. Neste ponto, pelo menos, economistas e comentaristas estão corretos em apontar o recuo do preço dos alimentos, devido à boa safra proporcionada pelo clima favorável. Em suma, o verdadeiro ministro da Fazenda do Brasil, em 2017, foi São Pedro, e não Meirelles. E, a menos que o santo continue no governo, não há nenhuma garantia de que Temer e ele tenham o que festejar neste ano.