MICHEL TEMER

Luciano Huck é candidato a ser o maior cabo eleitoral de 2018

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Huck pode não querer sentar na cadeira, mas seria capaz de dá-la para alguém

Luciano Huck é candidato a ser o maior cabo eleitoral de 2018

Dia do Fico: Huck diz que fica onde está - longe do Planalto (Foto: Divulgação/Facebook)

Finalmente, o apresentador global Luciano Huck encerrou as especulações sobre uma eventual candidatura à Presidência no ano que vem. Num longo artigo publicado na Folha de S.Paulo desta segunda (27), Huck agradece o apoio, faz um diagnóstico consciente dos problemas nacionais e da velha e carcomida política. Confessou-se tentado a cair no “canto das sereias” de Brasília, mas resistiu, mesmo às custas de se amarrar e por orientação das pessoas mais próximas, que taparam simbolicamente os ouvidos com cera, como na Odisseia, evocada pelo apresentador no texto. Prometendo se engajar cada vez mais nas discussões de como transformar o Brasil num país sério e desenvolvido, Huck deu o xeque-mate nas expectativas: “Contem comigo. Mas não como candidato a presidente.” Mais claro que isso, impossível. Isso não significa, contudo, que Huck esteja fora da campanha de 2018. Pelo contrário: pode ser seu maior cabo eleitoral.

Houve momentos decisivos na história brasileira em que artistas, intelectuais, celebridades e locutores de rádio e TV não emprestavam apenas seu prestígio para divulgar uma causa, mas militavam ativamente por ela. Basta ver as fotos de protestos contra a ditadura, com uma constelação de rostos conhecidos liderando-os literalmente – ali, puxando a marcha, segurando faixas. Colocaram-se em perigo, foram presos, torturados, exilados, mortos. Um pouco depois, as Diretas Já reuniram em palanques, Brasil afora, artistas, celebridades, políticos e intelectuais, a ponto de o locutor esportivo Osmar Santos se tornar um de seus símbolos – e uma de suas vozes.

Recentemente, Chico Buarque foi esculachado publicamente (com direito a afronta pessoal de um jovem bêbado na porta de um restaurante carioca) por continuar apoiando Luiz Inácio Lula da Silva, a despeito das denúncias que lhe pesam na Lava Jato. Outros artistas optaram por levantar bandeiras mais contemporâneas, como as questões de gênero, o combate ao racismo, e o empoderamento feminino. Não há nada de errado em aderirem a causas, muito pelo contrário. Mesmo que não concorde com algumas, o povo é estimulado a debatê-las a ponto de encontrar suas próprias respostas. Faz parte da cidadania e da democracia que todos, famosos ou não, possam se manifestar livremente em prol das ideias que defendem, e possam se engajar efetivamente em movimentos nos quais acreditam.

Afasta de mim esse cálice

Com uma maturidade que falta a muitos políticos profissionais, Huck, sensatamente, soube distinguir a sedução do poder do legítimo desejo de ajudar na reconstrução do país. O caso só reforçou a certeza de que, ameaçados de serem varridos de cena, os partidos estão desesperados para se agarrar a qualquer nome que lhes garanta alguma sobrevida. O contraste não poderia ser mais claro: ao cortejar Huck, os partidos (PPS e DEM à frente) mostraram-se muito mais preocupados em conquistar o poder, do que em oferecer uma alternativa nova e consistente para o Brasil. Aliás, quanto mais inapto o candidato, melhor: seu entorno dominaria a máquina pública a pretexto de serem experts.

De qualquer modo, Huck não está morto politicamente. É provável, até, que negar sua candidatura fortaleça seu carisma entre os brasileiros. Seria a aprova de que não é ambicioso para alcançar o Planalto a qualquer custo, apenas porque pode. Mas, com 60% de aprovação popular, segundo a recente pesquisa do Ipsos-Estadão, Huck pode se transformar no melhor garoto-propaganda de 2018, caso abrace uma candidatura. Imagine o impacto de sua participação em vinhetas de TV ou no horário eleitoral gratuito. Huck pode não querer sentar na cadeira, mas seria capaz de dá-la para alguém. Sua responsabilidade política apenas aumentou, e não parará de crescer.