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Luciano Huck: velhos políticos com gatinhas de biquíni na piscina do Alvorada?

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Sem mudanças profundas, velhos políticos dançarão na nossa cara, à beira da piscina do Alvorada, com gatinhas vestidas de Tiazinha e DJs tocando músicas modernosas

Luciano Huck: velhos políticos com gatinhas de biquíni na piscina do Alvorada?

(Imagem: programa H, de Luciano Huck/Reprodução)

Até as capivaras que passeiam pelas margens do rio Pinheiros sabem que já passou da hora de o Brasil renovar completamente sua política e seus políticos. Assim como o mau cheiro do rio torna insuportável a vida ao seu redor, a podridão que exala de Brasília atrai apenas moscas varejeiras e vermes para empestear o centro do poder, espantando quem ainda tem olfato e decência. Mas a pressão pública para renovar a política ameaça descambar, desastrosamente, na escolha de marionetes jovens e bem-vistas, manipuladas pelo que há de mais arcaico no país. O frisson da vez é do apresentador Luciano Huck, um dos queridinhos da Globo. Os ingredientes de Huck são poderosos para atrair eleitores. Mas a pergunta a ser feita é: são os ingredientes corretos? Quanto da força política de Huck será construída e sustentada por velhas raposas de Brasília que, sabiamente, ficarão nas sombras para se aproveitar?

Huck fez fama e fortuna com uma combinação única de elementos. Primeiro, sua imagem de jovem bon-vivant, curtindo o que há de melhor na vida: belas praias, música da moda, muitas gatinhas em trajes mínimos... Nunca é demais lembrar que parte do sucesso inicial de Huck foi baseado na exploração de fetiches de adolescentes e jovens onanistas nas noites de fim de semana: quem não se lembra da Tiazinha, a mascarada sadomasoquista curvilínea, requebrando até o chão nos anos 90? Ou da Feiticeira, a loira siliconada a quem qualquer moleque de colegial gostaria de fazer três pedidos daqueles...? Ou de Dani Bananinha, com sua carinha de anjo e seu nome malicioso?

Bom rapaz...

Numa segunda fase, Huck começou a pincelar sua imagem com um verniz de bom moço, preocupando com quem ficou para trás. De reformar carros velhos e carcomidos no quadro Lata Velha, a praticamente reconstruir casas decrépitas e aparelhá-las com bons móveis e eletrodomésticos, Huck transformou-se numa versão juvenil da Fada Madrinha dos filmes da Disney. Sim... aquele moço narigudo, que curtia praia e belas gatas, amadureceu. Sem perder o gosto pelas boas coisas da vida, agora abria espaço em seu programa para “mostrar o outro lado” – e, mais do que isso, ajudá-lo. Foi o bastante para que sua audiência saísse de seu curral original (os jovens) para conquistar a classe média mais velha. Senhoras e senhores que recebiam os filhos e netos em almoços de fim de semana passaram a simpatizar com aquele rapaz que ajudava os mais pobres. Viam, nele, a prova de que os bons valores não se perderam em meio à “vida loka” do século XXI. Com isso, a camada mais conservadora até lhe deu um desconto: tudo bem, pode fazer luau na praia... você merece... ajudou alguém hoje!

A par-e-passo, Huck soube cultivar uma carreira de empreendedor. De apresentador de TV, ele expandiu seus negócios e construiu uma imagem de bom gestor. Para arrematar, sabe administrar sua vida privada: é casado com a também apresentadora e cantora Angélica – outra presença constante nas fantasias de adolescentes e pais de adolescentes dos anos 90 e 2000, tem filhos, e não se tem notícias de escândalos conjugais capazes de arruinar sua reputação. Ao que parece, é bom pai, bom marido e muito família. Ou consegue, pelo menos, manter bem as aparências.

Isso basta?

Agora, queridos leitores, me digam: o que, francamente, dessa história toda o habilita a ser o próximo presidente do Brasil? É claro que precisamos renovar a política e incentivar que pessoas capazes e honestas a assumam. Mas o culto a Huck é, até onde se vê, uma cortina de fumaça que oculta fatos preocupantes. Sua candidatura, se vingar, não será o resultado nacional de alguém que, progressivamente, tomou consciência da realidade de seu país, soube comunicar sua visão com clareza e mobilizar aliados políticos e forças sociais, bem como cativar a população. Sua candidatura mais parece uma construção de laboratório, composta por marqueteiros, jornalistas voluntariosos, fãs, redes de televisão...

Mas o pior de tudo são os políticos que querem apoiá-lo. De parte do PMDB ao PPS, que perdeu sua vocação de esquerda há muito tempo para se tornar um partido incolor, adesista de qualquer governo, a parcelas de tucanos, Huck aglutina ao seu redor representantes da velha política, que apenas querem se aproveitar de sua fama para sobreviver. Já vimos isso antes. Em 1989, Silvio Santos, o apresentador e dono do SBT, promoveu um furacão nas eleições, ao entrar tardiamente na corrida presidencial, desbancar Fernando Collor de Mello do primeiro lugar das pesquisas e ser cassado pelo TSE. O argumento, válido, era de que seu minúsculo partido, o PMB, não cumprira os requisitos para se registrar.

Caldeirão do Huck

Também de 1989 vem outro exemplo de como os brasileiros misturam, infantilmente, renovação com cara nova. Collor, o “caçador de marajás”, era jovem, bonitão, praticava judô, corria por Brasília com camisetas cheias de mensagens inspiradoras, pilotava caças da FAB, falava grosso, vangloriava-se de ter “aquilo roxo”. Governou com uma base aliada tão fisiologista e execrável, quanto a de Michel Temer hoje. E deu no que deu...

É muito cedo e irresponsável, para dizer que Huck é um Collor versão FULL HD. Ao que parece, está longe disso. Mas a história brasileira mostra que a verdadeira renovação de que precisamos não passa apenas por um rosto jovem e confiável. Passa, sobretudo, por mudanças profundas de regras e mentalidade – nossa e dos políticos. Caso contrário, tudo o que veremos nos próximos anos são velhos políticos dançarem na nossa cara, ao som de DJs descolados e gatinhas vestidas de Tiazinha, à beira da piscina do Alvorada. Tudo sob os olhos bondosos do presidente Huck.