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Lula deveria desistir da eleição, pelo bem da esquerda e do Brasil

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Se disputar à base de liminares, Lula trará uma infernal insegurança jurídica à eleição, retardará a renovação de lideranças e jogará a economia novamente no coma

Lula deveria desistir da eleição, pelo bem da esquerda e do Brasil

Hora do adeus: eleição virou questão pessoal para Lula, o que é um erro (Foto: Divulgação)

Numa reunião com deputados federais e senadores petistas em Brasília, nesta quarta-feira (13), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu “brigar até as últimas consequências” para provar sua inocência na Lava Jato e garantir mais quatro anos na Presidência. Segundo a Folha de S.Paulo, suas palavras foram: “a única coisa que não quero é ser condenado inocente. Por isso, vou brigar até as minhas últimas consequências, porque eu sei que o objetivo é tentar evitar que o PT volte ao governo.” Mesmo que, nesse evento, falasse para ovelhas convertidas, não há motivos para supor que blefasse. Tudo indica que Lula e seu exército de advogados e militantes lutarão até o último homem. Goste-se ou não, ele tem direito à plena defesa, como todo mundo. Mas, se Lula está tão preocupado com o Brasil, quanto diz estar, o melhor seria desistir logo da candidatura, abrir caminho para um sucessor e se concentrar na reconstrução do PT e na redução da insegurança jurídica da eleição de 2018. Seria bom para ele, para o PT e, sobretudo, para o país.

Dos dois pontos citados acima, obviamente, o mais importante para os brasileiros é a possibilidade de o próximo presidente ser decidido pelo STF, e não pelas urnas. Isto porque, se Lula cumprir sua promessa, é muito provável que atravesse a campanha toda à base de liminares e outros recursos que a criatividade de seus advogados inventar. O motivo é que, embora negue publicamente, a cúpula petista dá como certa sua condenação em segunda instância, no julgamento marcado para 24 de janeiro. Com isso, Lula já poderia ser preso. Mesmo que não seja (a prisão é permitida, mas não obrigatória), se tornará inelegível pela Lei da Ficha Limpa. No máximo, se a decisão do Tribunal Regional Federal não for unânime, a defesa do ex-presidente conseguirá um tempo extra, por meio de embargos infringentes.

Disco riscado

Agora, imagine você como entraremos em 2018, com o principal candidato à Presidência condenado em segunda instância e amparado por uma guerra de liminares. Ora, Lula poderá fazer campanha, porque um juiz qualquer acatou seu recurso. No instante seguinte, alguém da oposição ou do Ministério Público Federal cassa a liminar e Lula oficialmente perde o direito de concorrer. Na tréplica, a defesa de Lula encontra outra brecha e o recoloca na corrida. Previsivelmente, alguém achará uma falha na brecha e derrubará a nova liminar, tornando o petista inelegível outra vez. Pelo andar da carruagem, será assim durante toda a campanha, no que depender da disposição do ex-presidente. Ora, o PT terá candidato; ora, não. Ora, os eleitores terão a opção de votar em Lula; ora, não. Ora, os empresários farão seus cenários com Lula na disputa; ora, não. Ora, os candidatos do PT a outros cargos poderão distribuir santinhos posando ao lado da estrela-mor do partido; ora, não. Resumindo, será um inferno...

Quanto mais o tempo passar nesse rame-rame, pior será para o Brasil. O ideal para Lula é empurrar essa briga jurídica o quanto puder. Agora, suponha que ele consiga chegar à eleição numa situação indefinida: condenado em segunda instância, mas amparado por uma liminar. O que acontece, se ele passar para o segundo turno e a liminar cair? O seu adversário é automaticamente eleito presidente por W.O.? O terceiro colocado vai para a etapa final disputar a cadeira? E se, entre o primeiro e o segundo turnos, Lula obtém novo recurso? Volta tudo como era? E se ele vencer a eleição, mas for definitivamente condenado antes da diplomação de presidente (portanto, antes de ter direito a foro privilegiado)? Anulam-se as eleições? Faz-se um novo segundo turno? Passa-se a faixa para o vice de Lula? Para o segundo colocado na disputa?

Como se vê, a teimosia de Lula em continuar beneficia apenas a si próprio. Tantas dúvidas jurídicas causarão uma insegurança monumental, que paralisará o Brasil até que sejam respondidas. Neste meio tempo, os movimentos sociais aliados ao PT, como o MST e o MTST, bem como centrais sindicais, provavelmente tentarão arrastar o povo para as ruas, a fim de pressionar a justiça, a opinião pública etc. Ao defenderem incondicionalmente Lula, esses atores estarão apenas dando um tiro de bazuca no pé, ao estimular uma radicalização que, no limite, pode favorecer apenas o candidato oponente – hoje, o ex-militar Jair Bolsonaro.

Estrela solitária

Além disso, o petista já não é o líder inconteste da esquerda. Fora os movimentos que sempre lhe foram leais, alguns partidos e militantes da esquerda já o contestam ou, no mínimo, o colocaram na geladeira. O ex-governador do Ceará Ciro Gomes, por exemplo, era visto como o plano B do PT, caso Lula não possa concorrer. Em declarações de vídeo e à imprensa, Ciro atacou duramente a insistência do petista e deu uma prova cabal de que não está nem aí para ele. O PCdoB, outro antigo aliado, já lançou a pré-candidatura de Manuela D’Ávila ao Planalto. Sem contar as articulações de alas petistas com políticos de outras legendas para criar um “novo campo de esquerda”. O quadro se agrava, quando se constata que a sombra de Lula não permitiu que nenhuma outra liderança petista pudesse surgir. É nessas horas, que ela faz falta. Um “segundo Lula” poderia tomar para si a candidatura, com o compromisso de defender publicamente o legado do ex-presidente.

Ao mesmo tempo, nenhum empresário ou investidor colocará um tostão no Brasil, antes de saber onde tudo isso terminará. A economia, que se recupera a passos de ameba, mais por inércia do que por mérito de Michel Temer e Henrique Meirelles, voltará ao coma. Tudo somado, a presença de Lula na campanha atrapalha muito mais, do que ajuda o Brasil neste momento. O ideal seria que se retirasse para defender sua inocência no lugar apropriado – a Justiça – e não nas urnas.