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Lula e o PT: verdadeira herança maldita foi ferir de morte a esquerda

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Agora que Lula transubstanciou-se de Deus em Mortal e está mais perto de Curitiba do que do Planalto, a esquerda brasileira perdeu seus santos – e na pior hora

Lula e o PT: verdadeira herança maldita foi ferir de morte a esquerda

(Foto: Ricardo Stuckert/Página oficial de Lula/Facebook)

Se há um consenso entre os envolvidos na Lava Jato, é que o depoimento de Antonio Palocci a Sérgio Moro, na semana passada, é apenas uma tempestade a encharcar a candidatura de Lula ao Planalto. Se realmente fechar um acordo de delação premiada, o que Palocci contar (e provar, claro) pode se transformar num verdadeiro furacão Irma, reduzindo a escombros a tentativa do PT de santificar Lula e transformá-lo num mártir da luta das massas pela ascensão social. E, como desgraça pouca é bobagem, Guido Mantega também sinaliza que quer contar o que sabe. Seria igualmente arrasador – com o adendo de que Mantega poderia devastar também a imagem de Dilma Rousseff. Na dúvida, partidos de esquerda que tradicionalmente seguiam Lula como cães amestrados já começam a pensar na própria sobrevivência.

A Folha de S.Paulo deste domingo (10) conta que dirigentes de esquerda já discutem um cenário sem Lula em 2018. Para eles, após as declarações de Palocci, o ex-presidente perdeu qualquer condição de concorrer. A situação fica ainda mais difícil, quando se constata que, mesmo na cúpula do PT, ninguém sabe o que fazer agora. O Estadão de hoje afirma que Fernando Haddad é, sim, o Plano B de Lula, caso seja condenado ou fique politicamente inviável. Há dois problemas, no entanto. O primeiro, e mais óbvio, é se Haddad toparia subir num palanque e defender, a plenos pulmões, Lula, o PT e tudo o mais que se viu desde a eclosão da Lava Jato. O segundo é a sensação da cúpula petista de que Haddad não é tão confiável, quanto deveria. Ele seria, segundo declarações de dirigentes ao jornal, tão indomável, quanto Dilma.

Arrasador

Tudo somado, há algo que demorará anos para ser bem compreendido: o tamanho do estrago que Lula e o PT causaram à esquerda brasileira. Desde sua fundação, nos anos 80, até o impeachment de Dilma e a primeira condenação de Lula, o partido monopolizou o discurso da esquerda. Era irresistível, para muitos brasileiros, a combinação de uma legenda fundada por operários, padres progressistas, movimentos sociais, intelectuais e artistas, liderado por um retirante e ex-metalúrgico que encarnava a trajetória de grande parte do povo sofrido do país.

Acrescente-se a defesa dos mais pobres, a luta contra a exploração da elite e a bandeira intransigente da ética na política, e teríamos o partido ideal de qualquer pessoa que sonhasse em ver um Brasil socialmente justo. Um lugar onde os pobres ousassem imaginar dias melhores para seus filhos. Onde a sanha do espírito animal dos capitalistas fosse domada. Neste sentido, as sucessivas derrotas do PT eram apenas a prova de que a luta deveria continuar. Um dia, num momento mágico, a história nos faria justiça. E ela chegou, para muitos, em 2002, com a eleição de Lula.

Da água para o vinagre

O que se viu, porém, foi o progressivo abandono de aliados, causas e discursos. A crescente promiscuidade com empreiteiros, oligarquias políticas e coronéis que representam o mais repugnante atraso econômico e social. O que se viu foi Haddad sendo ungido por Lula e Paulo Maluf, sorridentes num aperto de mãos no suntuoso jardim da mansão do ex-governador biônico de São Paulo – um tapa na cara de qualquer um que pensava que o mundo seria diferente.

O partido tornou-se cada vez mais intolerante com críticas, dissidências e dúvidas. De uma organização política que se orgulhava de cultivar a diversidade de opiniões e assistir a embates acalorados em busca das melhores ideias, o PT tornou-se uma igreja. E, como toda igreja, dividia as gentes em duas: as fiéis e as infiéis. Às primeiras, era prometido o Paraíso na Terra, desde que pregassem a palavra de seu Messias. Às segundas, o Inferno nunca lhes seria tão monstruoso, quanto mereceriam, diante da ousadia de duvidar de seu Mestre.

Agora que Lula transubstanciou-se de Deus em Mortal e está mais perto de Curitiba do que do Planalto, a esquerda brasileira perdeu seus santos. Seus apóstolos buscam, agora, algo em que acreditar; um novo profeta que encarne a Salvação. Infelizmente, para qualquer lado que se olhe, veem-se apenas almas perdidas que sucumbiram a pecados capitais.

Quem ainda crê na Palavra?

É verdade que, até aqui, o problema poderia ser apenas o homem errado a pregar a palavra certa. Um fraco, que fornicou com empreiteiros, banqueiros, caciques políticos e corruptos em geral, mas que trazia nas mãos o discurso correto da redenção: justiça social, políticas de inclusão, atuação forte do Estado para conter desequilíbrios e induzir o crescimento em áreas estratégicas, fortes políticas de redistribuição de renda.

Mas, como toda boa história de maldição, os demônios pensaram em tudo. O PT e Lula abriram uma crise de liderança na esquerda, justamente no momento em que o próprio discurso de esquerda cai em descrédito. O bolivarianismo de Hugo Chávez e Nicolás Maduro transformou-se em uma assustadora ditadura. O peronismo dos Kirchner descambou em corrupção e queimas de arquivo. A social-democracia europeia quebrou. Cuba é uma peça viva de museu. A China tornou-se uma ditadura de partido único que tolera uma única liberdade: a de mercado.

Já estava difícil defender a esquerda num mundo cada vez mais conservador, reacionário e de direita, com Donald Trump como sua mais bizarra expressão. Lula e o PT fizeram o favor de agravar ainda mais a situação. Não havia hora pior para que os petistas trocassem de lado. Algo que demorará décadas para ser corrigido – se for...