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Lula elogia Renan e Sarney: isso é lutar contra a elite?

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

É com essas forças que Lula pretende governar novamente? Já não sabemos o preço que esses senhores cobram em troca de apoio?

Lula elogia Renan e Sarney: isso é lutar contra a elite?

(Foto: Dilvugação/Perfil Oficial de Renan Calheiros/Facebook)

Dê uma boa olhada nesta foto. Ela foi postada no perfil oficial de Renan Calheiros. Nela, o senador peemedebista, que votou pelo impeachment de Dilma Rousseff, e o governador de Alagoas, Renan Filho, ciceroneiam Luiz Inácio Lula da Silva pelo interior daquele Estado. Dividem um palco, posam sorridentes para fotos. A calorosa acolhida de Renan foi retribuída por Lula, em entrevista coletiva a rádios universitárias de Pernambuco nesta sexta-feira (25). Sua declaração foi, literalmente:

“O Renan pode ter todos os defeitos. Agora, o Renan me ajudou a governar esse país. Se ele cometeu algum erro, eu sou da opinião de que todo mundo é inocente até que se prove o contrário. Se eu quero para mim a inocência até que provem o contrário, vou querer para os outros também”.

Na mesma entrevista, afirmou sobre outro peemedebista conhecido por seus interesses pouco republicanos, José Sarney: “Eu sou grato ao Sarney, é importante dizer. Eu sou grato ao Sarney como presidente do Senado.” Depois de desfilar, todo pimpão e serelepe com Renan Calheiros e Renan Filho pelo interior de Alagoas, Lula deve se encontrar com Sarney, quando chegar ao Maranhão.

"Num tô intendeeendoo..."

Agora, por favor, algum lulista ou petista pode me explicar o que, raios, faz Lula em tão desabonadora companhia? Logo ele, que se vende como vítima de um golpe das elites? Como Lula confraterniza com coronéis da velha política, representantes do que há de mais ultrajante e arcaico no país, responsáveis por grande parte do atraso social, econômico e histórico? Logo, ergueram-se vozes defendendo o pragmatismo político de Lula e os arautos da realpolitik.

Mas há uma diferença fundamental entre fazer pactos de governabilidade com forças políticas rivais e vender a alma aos demônios que representam tudo o que há de mais nefasto, carcomido, podre e atrasado no cenário político brasileiro. Ser pragmático não deve servir de salvo-conduto para apertar mãos sujas.

"Lula sendo Lula"

É com essas forças que Lula pretende governar novamente? É com Renan, Sarney e outros de igual quilate que garantirá sua governabilidade? Já não sabemos o preço que esses senhores e os de sua laia cobram em troca de apoio? Anos de Lava Jato não serviram para nada? Quando digo que Lula fez um pacto com conservadores e reacionários, sou criticado pela esquerda, que me toma como um coxinha obtuso e burro. Mas quem, entre os eloquentes defensores de Lula, é capaz de justificar tamanha contradição?

Logo dois caciques do PMDB, partido que protagonizou o impeachment de Dilma Rousseff, naquilo que os petistas vendem como “golpe parlamentar”? Logo Renan Calheiros, que literalmente votou pela saída do poste eleito por Lula? É isto, a essência da nova política que o petista pretende levar para o Palácio do Planalto, se eleito?

Questionado a respeito, um dirigente petista, que só aceitou falar anonimamente com a Folha de S.Paulo, saiu-se com uma lacônica declaração: “É Lula sendo Lula.” Poder-se-ia acrescentar: no mau sentido.