LAVA JATO

Lula falsificou recibos de aluguel? A pergunta que não quer calar

Márcio Juliboni
Yazar
Márcio Juliboni

Revirar as gavetas de Dona Marisa, em busca dos documentos, levou quase um ano – ô família bagunçada, hein?

Lula falsificou recibos de aluguel? A pergunta que não quer calar

(Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula)

Luiz Inácio Lula da Silva, definitivamente, não se dá bem com imóveis. Depois de ser condenado a nove anos e meio de prisão por Sérgio Moro, por causa do tríplex do Guarujá, outro apartamento o atormenta. Trata-se daquele vizinho ao seu, no prédio onde mora em São Bernardo. A versão oficial é de que sua esposa, Marisa Letícia, o alugou para guardar coisas da família. Já a história contada pela força-tarefa da Lava Jato é outra: Lula é o seu verdadeiro dono, e o aluguel é só uma fachada. Nada mais simples do que apresentar o contrato, os recibos de aluguel, e cruzá-los com os depósitos na conta do alegado dono, não? Mas, na vida de Lula, nada é tão simples. A polêmica, agora, é sobre a autenticidade dos recibos apresentados pela sua defesa.

Falando claramente, há quem desconfie que Lula falsificou os documentos para sustentar sua versão dos fatos. Seria apenas uma paranoia de antipetistas ou de jornalistas que querem ver o circo pegar fogo, se não fosse por um elemento importante. Glaucos da Costamarques, o suposto proprietário do apartamento, afirmou a Moro que tudo não passou de uma farsa. Segundo o Estadão desta sexta-feira (29), Costamarques assinou todos os recibos num único dia, em novembro de 2015, enquanto estava internado no Hospital Sírio-Libanês.

De acordo com a Procuradoria-Geral da República, em 2010, a Odebrecht bancou a compra do imóvel com dinheiro de propinas destinadas a Lula. Costamarques entrou apenas como laranja, atendendo a um pedido de seu primo, o pecuarista José Carlos Bumlai, amigão de Lula. Naquele dia de autógrafos no Sírio-Libanês, outro aliado do ex-presidente, o advogado Roberto Teixeira, teria garantido ao acamado que, dali em diante, o aluguel passaria, efetivamente, a ser pago.

Haja bagunça

A defesa de Lula, naturalmente, nega as declarações de Costamarques. O inegável, porém, é como esses recibos demoraram para aparecer. Em audiência, o próprio Moro perguntou a Lula, algumas semanas atrás, como esses papeis ainda não haviam aparecido, já que as suspeitas sobre o apartamento de São Bernardo se avolumam desde o ano passado. Não seria natural, portanto, que eles fossem apresentados o quanto antes? Lula tergiversou, fez piadas, mas não respondeu. Limitou-se a dizer que sua esposa, Marisa Letícia, morta no início do ano, é quem cuidava disso. Ao finalmente apresentar os documentos, a defesa do petista afirmou que estavam perdidos entre os pertences da falecida.

Pode ser que Lula seja apenas mal organizado. Pode ser que Dona Marisa fosse uma baita bagunceira. Mas, vamos lá: a não ser que ela fosse uma acumuladora contumaz de papeis, dessas psiquiatricamente diagnosticadas com problemas mentais, não é razoável pensar que seria necessário quase um ano para que se revirasse suas gavetas até encontrar os recibos de alugueis.

Se a documentação é falsa, como sustenta Costamarques, Lula não está apenas apelando para se salvar. Está cometendo um crime para se safar de outro. Como ele mesmo disse a Moro, quando se referiu ao bombástico depoimento de Antonio Palocci, o mal do mentiroso é que, depois da primeira, precisa contar sucessivas mentiras para escapar. Será que o ex-presidente estava falando com conhecimento de causa?