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Lula X Boulos: quem ganha essa briga?

Márcio Juliboni
Autor
Márcio Juliboni

Disputa pelo Planalto entre a velha e a nova esquerda; ou um encontro de Boulos com o que se tornaria, caso assumisse o poder?

Lula X Boulos: quem ganha essa briga?

(Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula)

À medida que Luiz Inácio Lula da Silva esfarela-se em público, desgastado pela Lava Jato, a esquerda amplia sua busca por alternativas. É verdade que o PT parece disposto a cometer um suicídio político coletivo, ficando ao lado do ex-presidente até o fim. Mas outras siglas se movimentam. Surge agora, por exemplo, o nome de Guilherme Boulos, líder do MTST, como eventual candidato à Presidência pelo PSOL. Como escreveu o jornalista Pedro Zambarda, em sua coluna aqui no Storia, não deixa de ser uma boa opção para tirar o partido fundado por ex-petistas da sombra de Lula. Penso, contudo, que o mais interessante mesmo seria assistir ao embate público entre Boulos e o ex-metalúrgico – a nova e a velha guarda da esquerda brasileira lavando a roupa suja em público. Quem venceria essa briga? E o que ela representaria para o Brasil?

Lula já é um veterano da política e, portanto, suas ideias e suas estratégias são relativamente manjadas. Em que pese sua capacidade de ser uma metamorfose ambulante, dizendo e desdizendo-se tão naturalmente como quem inspira e expira, suas ações concretas nos oitos anos de presidência revelaram seu estilo. Sua aliança com o que há de mais repugnante na política nacional (as facções coronelistas do PMDB, o fisiologismo de partidos nanicos de centro), o pacto de sangue com a corrupção, o deslumbramento por privar da proximidade com os verdadeiros poderosos do país (empreiteiros, banqueiros, grandes produtores rurais etc.) mostraram que Lula adora atacar a “elite branca de olhos azuis”, mas adora muito mais confraternizar com ela.

É claro que apenas os mais fanáticos petistas negam as imensas derrapadas de Lula. Esses fundamentalistas da Seita da Estrela Vermelha, porém, representam uma parcela decrescente da esquerda brasileira. É o caso de Boulos. Em uma longa entrevista para o livro A Crise das Esquerdas (Ed. Civilização Brasileira), o líder dos sem-teto criticou o pacto conservador que Lula selou com as elites para assumir o poder. Afirmou que esse acordo deveria ser apenas uma tática para alcançar o Planalto, mas acabou se tornando uma estratégia de longo prazo para que os petistas se mantivessem no poder pelo tempo que pudessem.

Um novo Lula?

Para Boulos, o grande erro de Lula foi não ter aproveitado o momento em que gozava de popularidade recorde (com 85% de aprovação) para romper esse pacto conservador e conduzir as reformas populares que, segundo o líder do MTST, são indispensáveis para que o país cresça de modo justo. Em determinado momento da conversa com o cientista político Aldo Fornazieri, um dos organizadores do livro, Boulos diz que o petista deveria ter buscado o apoio popular, obrigando o Congresso a aprovar as reformas sob pressão das ruas.

Quais reformas? Nada, por incrível que pareça, muito cabeludo: implantação de alíquotas progressivas de imposto de renda (quem ganha mais, paga mais) e auditoria da dívida pública. Com novas fontes de dinheiro asseguradas e com os gastos reduzidos, Boulos pensa que seria possível garantir a estabilidade fiscal. “Quando Lula tinha 85% de popularidade, uma hegemonia importante, havia espaço para colocar em pauta temas como reforma do sistema político, a democratização das comunicações, colocar temas tributários... Era preciso abrir mão do pacto conservador e construir um novo pacto socialmente sustentado. Optou-se por manter o pacto conservador, talvez com a ilusão de que isso fosse indefinidamente garantido, ou seja, não se via fim nesse processo”, disse Boulos na entrevista.

Qualquer um que fez uma crítica semelhante a Lula já sabe de cor a resposta dos salva-vidas petistas: sem acordos, o ex-presidente não conseguiria governar e deixaria um país bem pior. A eterna dúvida é se o petista não tinha, mesmo, escolha ou se poderia dificultar um pouco mais a vida da elite econômica. Para Boulos, Lula foi, no mínimo, acomodado. Em 2018, talvez tenhamos a chance de ver as respostas do petista ao líder do MTST – e de decidirmos o que estaremos vendo: a velha esquerda sendo desafiada pela nova; ou se tudo não passará de um encontro de Boulos consigo mesmo, num futuro em que ele assumisse o poder.