PT

Maracutaia, a verdadeira capital do Brasil, e o acordão para salvar Temer

Márcio Juliboni
Author
Márcio Juliboni

Os políticos eleitos por Maracutaia são péssimos, mas o mais triste, o mais aterrorizante, é seu povo. É com ele que temos que nos preocupar

Maracutaia, a verdadeira capital do Brasil, e o acordão para salvar Temer

Esqueçam Brasília. A verdadeira capital do país, desde seu descobrimento, é Maracutaia. Brasília é apenas uma grande cidade cenográfica. Nela, encenam-se histórias de indignação com as relações pornofinanceiras entre políticos, empresários, doleiros e atravessadores em geral. Mas é em Maracutaia que os verdadeiros rumos do Brasil são traçados e executados. É dela que saiu o acordão para salvar Michel Temer na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara nesta quinta-feira (13).

Como uma ilusão de óptica, Maracutaia está na nossa cara e não a vemos. Apenas sentimos seus reflexos no mundo visível: o desvio bilionário de dinheiro público, o abandono dos mais pobres, a deterioração revoltante dos serviços públicos, a burocracia enlouquecedora, os impostos criminosos, a perpetuação de “famiglias” e facções criminosas no poder, as decisões espantosas da Justiça e, sobretudo, a crise moral, econômica e social que entranha na alma como reumatismo.

Hábitos e costumes dos maracutaianos

O motivo é que Maracutaia foi habilmente projetada e construída sobre Brasília como uma holografia – como esses selos holográficos de CDs e DVDs. Olhe de um jeito, e você enxergará a cidade projetada por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Olhe de outro, e verá os contornos de Maracutaia. Assim como a luz possui vários comprimentos de onda invisíveis aos olhos humanos, como o infravermelho e o ultravioleta, Maracutaia só é perfeitamente perceptível sob a luz negra. Sob ela, tudo se revela: Maracutaia é o paraíso das felações premiadas.

Petistas fornicam com empreiteiros, tucanos se amasiam com juízes do STF, sindicalistas calam-se em troca de dinheiro, novos “líderes populares” se candidatam por partidos comprovadamente corruptos (e posam para fotos com mestres em saquear a República), “cidadãos de bem” guardam as bem areadas panelas de aço inox diante da corrupção de seus bandidos de estimação. Os movimentos sociais “de esquerda” se lambuzam com dinheiro e cargos públicos.

A cor preferida em Maracutaia

Mas o mais triste, o mais aterrorizante, o que causa mais revolta e perplexidade, é o povo de Maracutaia. Sob os comprimentos visíveis da luz, suas camisetas são verdes, amarelas, vermelhas. Mas, sob a reveladora luz negra, todas são da mesma cor: o pastoso “cinza-cúmplice”. A indignação raivosa e teatral que encenam em Brasília e nas grandes cidades não dá conta de todas as suas nuances: a sonegação cotidiana de impostos, a pirataria de produtos, o desrespeito aos direitos (quaisquer direitos – da vaga para deficientes à lei do silêncio, passando por furar filas), a carteirada para obter privilégios e intimidar os menos favorecidos, as puxadas de tapete no trabalho em busca de promoções, as mentiras e traições conjugais, os preconceitos de cor, raça, gênero, religião, o desprezo pela educação e pela cultura...

As interferências cada vez mais explícitas de Maracutaia na realidade visível, seja em Brasília ou em qualquer parte do país, não têm nada de espantosas. É apenas uma questão demográfica: a população de Maracutaia cresce muito mais rapidamente que a do Brasil. Os deputados que participaram do acordão para salvar Temer na CCJ são uma minúscula parcela de seus cidadãos. Outros tantos deverão se assanhar em salvar a pele do presidente no plenário da Câmara no início de agosto. Mas a grande maioria dos maracutaianos está nas ruas, tocando sua vida de pequenos golpes e espertezas, orgulhando-se de seus jeitinhos, como se a impunidade fosse eterna. É com eles que temos que nos preocupar.