ECONOMIA

Meirelles é um “excelente candidato” a presidente para quem?

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Entre o mercado e o Planalto, há um tal de povo, insatisfeito com a crise e com os remédios propostos

Meirelles é um “excelente candidato” a presidente para quem?

No mercado de peixe em que está se transformando a eleição de 2018, com muita gritaria e mau cheio no ar, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, já não esconde seu desejo de também disputar a Presidência. Fala e é apontado, cada vez mais, como alguém com potencial. Quem o apoia afirma que Meirelles é o maior responsável pelos primeiros e débeis sinais de retomada da economia, com a inflação e os juros baixos e a geração de empregos saindo do vermelho. O último a lhe fazer um rapapé foi Romero Jucá, presidente do PMDB e líder do governo no Senado. Nesta terça-feira (26), Jucá declarou que o ministro é um “excelente quadro” para a Presidência por qualquer partido que disputasse. Mas... é mesmo? Para quem?

A resposta mais óbvia é que Meirelles agrada àquela entidade sobrenatural chamada mercado, um ser que paira sobre nossas cabeças e é mantido pelas preces de empresários e investidores brasileiros e estrangeiros. Num governo que se afoga em escândalos político-criminais, o ministro é o único alento do empresariado, para quem Meirelles é praticamente um Hércules lutando contra a hidra do fisiologismo que garante a permanência de seu chefe, Michel Temer, no Palácio do Planalto. As dificuldades para aprovar as reformas vão ao limite, diante da fraqueza política do presidente, e o grande capital põe na conta deste, e não de Meirelles, o fato de que ainda não tenham saído do Congresso.

Ruim de papo

Mas o Brasil não é habitado apenas por banqueiros, investidores e empresários. Há aquela parcela numerosamente incômoda – um tal de povo. Anônimo, sente na pele e no bolso a crise econômica, o desvio de dinheiro público para a corrupção, a falta de perspectivas e se ressente de arcar com a maior parte do prejuízo causado por Brasília, sempre que o governo tenta ajustar as contas públicas, seja aumentando impostos, seja cortando gastos. O povo não fala economês, não se preocupa com ajustes atuariais na Previdência, nem está convencido de que as medidas adotadas por Meirelles são as necessárias.

E é aí que a coisa toda entorta. Para ser competitivo e, sonhando alto, vencer a eleição, Meirelles terá de explicar, em português, o que pretende fazer para tirar o país da crise. Seu primeiro desafio será, portanto, de comunicação. Acostumado a falar para ouvidos refinados em ambientes climatizados, Meirelles não é, nem de longe, um grande comunicador, e isso pesa muito nestes tempos de vídeos, podcasts, redes sociais, streaming e, claro, televisão, rádio, jornais etc. O ministro não chega a usar mesóclises, como Temer, mas está longe de se fazer entender pelo cidadão médio.

Advogado do diabo

Sua segunda desvantagem: se, e coloque um “se” com muitas ressalvas, Meirelles conseguir encontrar um modo de falar com o povão que não seja nem caricato, a ponto de todos saberem que ele está forçando a amizade, nem técnico demais, a ponto de só o mercado o entender, virá a segunda e mais difícil etapa – explicar como medidas impopulares merecem apoio popular. No melhor cenário, o ministro entrará na disputa com a reforma da Previdência já votada e aprovada por Temer. No pior, terá que dar a cara a tapa e assumir que a fará. Trata-se de um tema de alta octanagem, capaz de incendiar debate e humores. Como explicar que os brasileiros demorarão mais tempo para se aposentar? E, pior, como justificar os privilégios de castas públicas que saírem intactas do processo? O mesmo vale para a reforma trabalhista. Ainda que Temer as aprove e poupe Meirelles do bombardeio de propô-las, o ministro ainda será lembrado em debates e peças publicitárias, como o responsável por elas. Será apontado como seu tenebroso mentor intelectual. E isso não é pouca coisa.

Outro obstáculo concreto à sua candidatura é sua ligação com Luiz Inácio Lula da Silva e com Michel Temer. Foi presidente do Banco Central, durante os dois governos de Lula. Caiu nas graças do petista, a ponto de ser cotado para salvar Dilma Rousseff da ruína, com o apoio explícito de seu padrinho político. Depois, aceitou o pepino de desempepinar a economia, como ministro de Temer – o mais impopular presidente de que se tem notícia. Defendê-lo será queimar o filme já na largada. Atacá-lo será cuspir no prato em que comeu. Ignorá-lo será impossível. Temer é tão radioativo, quanto Lula, para candidatos apoiados por eles.

Será preciso um esforço monumental de marketing político para que Meirelles consiga a proeza de se eleger com aquele famoso discurso de pais e mães: “hoje, parece ruim, mas, um dia, vocês me agradecerão pelo que fiz”. Se nem os filhos modernos gostam desse papo, imagine os eleitores.