PT

Metade do Brasil está com Lula e Bolsonaro. E a outra metade?

Autor

A verdadeira polarização de 2018 é outra: a que divide os eleitores entre quem apoia o petista e o ex-militar, e quem não quer nenhum dos dois

Metade do Brasil está com Lula e Bolsonaro. E a outra metade?

Dúvida: brasileiros confirmarão polarização ou corrigirão o rumo? (Foto: Divulgação/TRE-RJ)

Engana-se quem acha que a polarização da eleição de 2018 ocorre entre Jair Bolsonaro, pela direita, e Luiz Inácio Lula da Silva, pela esquerda. Uma análise mais detalhada dos números divulgados pelo Datafolha neste fim de semana mostra que a verdadeira polarização é outra: aquela que divide os eleitores entre quem apoia Bolsonaro ou Lula, e quem não quer nenhum dos dois. O instituto montou cinco cenários de primeiro turno com os dois. Na média, o ex-militar e o petista somam 54% das intenções de votos, oscilando entre 51% e 56%, conforme os supostos concorrentes. Mas 46% dos entrevistados, na média, não votariam em nenhum deles. Esses eleitores se espalham entre os demais candidatos, além de quem pretende votar em branco ou nulo e quem ainda não se decidiu. A divisão mais relevante da eleição, até agora, portanto, é entre quem vai comprar o discurso do “nós contra eles” (qualquer que seja o “nós” e qualquer que seja o “eles”) e quem se cansou de radicalismos de direita ou de esquerda.

Não é à toa, portanto, que os cientistas políticos e alguns partidos tentam, a todo custo, encontrar o nome que represente o meio-termo: alguém moderado, capaz de catalisar os votos de quem não deseja incendiar o país, a pretexto de salvá-lo. Muitos balões de ensaio foram lançados para testar o eleitorado: do ex-presidente do STF Joaquim Barbosa ao apresentador Luciano Huck, passando por Sérgio Moro. Nenhum deles, contudo, foi capaz de transformar notoriedade em votos. É verdade que, em alguns casos, como os de Moro e Huck, o próprio “candidato a candidato” descartou veementemente sua intenção de entrar nessa briga. Logo, não há como saber como os brasileiros reagiriam, caso esses nomes fossem confirmados.

Órfãos de Lula

Mais interessante é pensar para onde migrarão esses eleitores em dois cenários. No primeiro, com Lula no páreo (absolvido pela segunda instância ou amparado por liminares), não há muita dúvida até agora: o ex-presidente subiria a rampa do Planalto pela terceira vez, qualquer que seja seu rival no segundo turno. Logo, uma parte suficiente dos eleitores moderados, de centro, prefeririam Lula a Bolsonaro – o cenário mais provável neste momento.

A outra situação é uma campanha sem Lula. Caso seja impedido de concorrer, por causa de uma condenação em segunda instância, o petista deixaria a liderança da eleição para o ex-militar. Na média, as intenções de voto em Bolsonaro subiriam três pontos percentuais no primeiro turno, saindo de 18%, com Lula, para 21%, sem ele. A dúvida é quão fiel será o eleitor do petista, caso ele seja impedido de se candidatar. Os lulistas entregarão o pleito à própria sorte? À primeira vista, quase metade deles sim. Se Lula disputar, 13,4% dos eleitores votarão em branco ou anularão. Sem ele, essa fatia sobe para 27,5% - um acréscimo de 14,1 pontos percentuais. Como, na média dos cenários do Datafolha, Lula tem 36% de votos, isso significa que cerca de metade de seus apoiadores ficaria “órfã” e se recusaria a escolher um substituto – mesmo que seja Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo.

Ainda assim, o restante do eleitorado petista se somaria a quem se opusesse a Bolsonaro. Com a soma dos demais votos moderados, o ex-militar sentiria o gostinho de estar quase com a mão na faixa, mas a veria nos ombros de outra pessoa em 1º de janeiro de 2019, segundo o Datafolha. Não seria nada mau: mostraria que metade dos eleitores não está nem com Lula, nem com Bolsonaro, mas com o Brasil.