ECONOMIA

Na República do Deboche, ninguém mais tem medo da Lava Jato

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Ironia de Romero Jucá sobre Rodrigo Janot mostra que, para os políticos, o pior da Operação já passou

Na República do Deboche, ninguém mais tem medo da Lava Jato

(Lula Marques/ AGPT)

Em qualquer país civilizado, um senador denunciado várias vezes em poucos dias à Suprema Corte, pelo Procurador Geral da República, deveria medir cada palavra para não agravar sua situação. Mas estamos no Brasil, onde os acusados estão cada vez mais à vontade para tripudiar da Justiça e da população. A última veio de Romero Jucá, líder do governo no Senado e presidente do PMDB . Ao saber que Rodrigo Janot apresentara a quarta denúncia contra ele no STF em uma semana, preferiu debochar da situação: afirmou que Janot deve ter algum fetiche pelo seu bigode. Mais do que uma piada sem graça, Jucá mostra que a Lava Jato não mete medo em mais ninguém em Brasília.

De um lado, Janot vive seus últimos dias no comando da PGR. A partir de 17 de setembro, Raquel Dodge o substituirá. Indicada pelo presidente Michel Temer, que contrariou o princípio de escolher o mais votado da lista tríplice que lhe é encaminhada pelo Ministério Público, enrolados em geral com a Justiça esperam que ela comece a varrer a sujeira para baixo do tapete, com o pomposo e institucional argumento de que é preciso retomar o “rigor” das delações premiadas e das práticas de investigação.

De outro, Gilmar Mendes, no STF, está cada vez mais à vontade para atacar a força-tarefa da operação, contrariar o bom senso, libertar quem deveria permanecer preso e carcomer um dos pilares da Lava Jato: a prisão após condenação em segunda instância. Assim, mesmo que algo escape de Raquel Dodge, sempre haverá uma toga amiga na corte máxima do país para acolher quem saiu da linha.

Quem cala consente

No meio, está o silêncio das ruas. Por cansaço, desilusão ou hipocrisia, a maior parte dos brasileiros encontrou seu próprio motivo para ficar sentada no sofá, vendo esse grotesco teatro do absurdo pela televisão. Os novos “líderes” populares, alçados à condição de celebridades na época do impeachment, calaram-se vergonhosamente. Após as pífias manifestações do último domingo (27), num ato de sinceridade, Rogério Chequer, do Vem Pra Rua, afirmou que ninguém deve esperar mais grandes aglomerações. E arrematou: “Já fizemos nossa parte.”

Nesse contexto, é sintomático o vídeo que Temer divulgou nesta terça-feira (29) nas redes sociais. Ao explicar o que pretende fazer na China, não perdeu a chance de alfinetar Janot e a Lava Jato. Disse que há gente que quer “semear a desordem” e “parar o Brasil”, mas garantiu que “tem força” para continuar no comando e concluir seu governo. Como vampiros políticos, Temer e seus aliados alimentam-se da progressiva fraqueza dos protestos de rua e do descarado uso do dinheiro público para, literalmente, arrendar apoio no Congresso. Tudo devidamente pago por você, por mim. Não é mesmo uma piada? Jucá, pelo que parece, acha que sim!