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O dia em que fui assediado sexualmente por um homem (e o que aprendi)

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A última pergunta,sempre, a que mais martela na cabeça e dói na alma é: foi minha culpa??

O dia em que fui assediado sexualmente por um homem (e o que aprendi)

Assédio: dói, envergonha e põe à prova nossa autoimagem (Obra: São Sebastião/Augustín)

Como prova o caso de Kevin Spacey, as mulheres não são as únicas vítimas de assédio sexual no mundo. É claro que é um grave problema e elas têm todo o direito de denunciá-lo, bem como a sociedade e a Justiça têm toda a obrigação de apoiá-las e punir os responsáveis. Mas, para que a discussão seja totalmente justa, não podemos ser reducionistas: homens também são assediados. Eu, por exemplo, já vivi um punhado de situações constrangedoras, com marmanjos me apalpando ou se esfregando em mim no metrô lotado – sério. Mas há, basicamente, dois motivos pelos quais o assédio de homens por homossexuais é jogado para baixo do tapete. Primeiro: em tempos politicamente corretos, apoiar a homoafetividade conta pontos. Idealizam-se homoafetivos e ignora-se que alguns são tão assediadores, quanto qualquer predador sexual. Segundo: o machismo constrange a grande maioria dos homens de denunciá-los. Afinal, que vergonha hein? Um marmanjo lhe apalpando... e você ainda conta pra todo mundo?!?! Seja homem e guarde para si!

O caso mais grave do qual fui vítima aconteceu uns três anos atrás. Era uma noite de terça-feira e enfrentara uma sessão cabeludíssima de terapia – daquelas em que você percebe o quanto é idiota por fazer o que não deve, e por não fazer o que deve. Subi a rua Itapeva cortando mentalmente os pulsos e entrei na avenida Paulista. Como era tarde e eu não estava a fim de cozinhar, decidi jantar no Center 3, aquele semi-shopping center na frente do Conjunto Nacional, já perto da Consolação. Àquela hora, pouquíssimas mesas estavam ocupadas na praça de alimentação, e os funcionários dos quiosques de comida dividiam-se entre os sonolentos e os ansiosos para irem embora. Apesar de toda a angústia existencial e da fome, o que mais me preocupava naquele momento era uma coisa muito singela: precisava ir ao banheiro. E foi quando o meu Kevin Spacey apareceu...

O banheiro masculino do Center 3 não é muito grande. É abafado e úmido, com azulejos claros e um cheiro um tanto enjoativo de desinfetante. Os mictórios são individuais, separados por divisórias de granilite. Estava vazio e o zumbido das lâmpadas fluorescentes dava ao local um ar de filme cult. Quem me conhece sabe o quanto posso ser distraído. Quando estou sozinho (e, às vezes, mesmo acompanhado) minha mente viaja. Ando pela rua pensando em coisas tão disparatadas, quanto o que ocorre além do horizonte de eventos de um buraco negro, novas propostas estéticas para as artes plásticas, livros que gostaria de escrever, o futuro do rombo fiscal brasileiro, o que aconteceria se eu fosse um monge shaolin e como era o lugar por onde caminhava, há cinco milhões de anos. Tudo isso randomicamente. É assunto suficiente para me fazer passar muita vergonha, topando com amigos e conhecidos sem sequer vê-los – quanto mais, cumprimentá-los. Alguns encaram isso como arrogância ou antipatia. Nada... é só minha alma flutuando bem longe do corpo!

Aflição pouca é bobagem

Naquele dia, o que me abduzia eram as minhas aflições mais íntimas como ser humano. Meu analista pegara pesado, e ainda tentava me recompor. Parei aleatoriamente em um dos mictórios, abri o zíper automaticamente, puxei meu amiguinho para fora e esperei que a bexiga começasse a esvaziar. Tudo estava meio borrado e distante, como se assistisse a mim mesmo urinando. Ah... como é bom!... ah... isso... segura firme, mira e relaxa... isso... com as duas mãos... sim... essa mão... essa mão... e essa mão... que engraçado... não sabia que minha mão estava aqui, entrando pelo canto do meu olho direito... puxa... tenho duas mãos direitas... puxa... mas como eu sinto só uma? Mas que engraçado... essa mão direita tá com o dedão trocado... como isso pode acontecer? Opa... uma... duas... três mãos... três??? Mas... espera... uma... duas... e essa aqui? Quando a mão estava a milímetros de distância do meu amiguinho, é que me dei conta: ei, tem mão sobrando aqui!!!!

Só tive tempo de gritar um: “Ei, o que você tá fazendo???!!!”

Levantei a cabeça, aturdido, e o vi. Não passava de um garoto com cerca de vinte anos, um pouco maior do que eu. Estava apoiado na paredinha de granilite, suficientemente próximo de mim para saber que estava invadindo o meu espaço pessoal. Diante da minha reação, recolheu a mão rapidamente e me encarava assustado. Repeti:

“O que é isso? O que você tá fazendo??” Ele recuou. Fingiu que iria urinar e postou-se em outro mictório. Tirou seu bilau e ficou lá, meio ao acaso, meio na expectativa de... vai que... né?

Emparedado

Estávamos sozinhos e isso era terrível para mim. Não havia testemunhas e eu estava diante de um assediador. Meu maior medo, naquele instante, foi que ele invertesse a situação e me colocasse como o culpado da história. Afinal, eu, um homem branco, num mundo em que a homofobia é justamente combatida... quem acreditaria em mim? Seria palavra contra palavra, e ele tinha a simpatia do espírito de nosso tempo ao seu lado. É politicamente correto condenar os homens por assédio. É politicamente correto proteger as minorias disso. Já imaginou se ele decidisse me acusar de... assediá-lo? Seria uma manobra e tanto para jogar, sobre mim, a culpa por aquela situação. Se ele quisesse criar um caso, eu estava danado...

Pensa rápido... pensa rápido... e ele lá... com o pingolim pra fora... a alguns mictórios de distância... respirei fundo... nessas horas, procuro encontrar meu rivotril interior. Ok, ok... você não é machista. Ok... ok... você apoia a luta contra a homofobia... ok, ok... você é contra a violência de gênero e orientação sexual... ok... ok... pensa... ok... ok... você respeita o direito de todos serem o que quiserem ser... ele é só um garoto... engoli seco e tentei controlar a voz. Com firmeza, mas sem agressividade, disse algo como: “Olha, eu respeito você como você é. É seu direito. Mas me respeite também. Respeite para ser respeitado. Você não pode fazer isso.”

Era claro que ele não esperava algo assim. Provavelmente, ele estava preparado para apenas duas situações: uma reação agressiva, palavrões, socos; ou (a esperança é a última que morre) vai que eu decidia entrar na brincadeira... afinal, o que é que tem? Sexo grátis numa noite de terça-feira... sem compromisso... sem nomes... só prazer... ele abaixou a cabeça, recolheu seu pênis. “Desculpe... me desculpe...”, sussurrou, constrangido. “Tudo bem”, respondi, “mas vamos parar por aqui, ok?” Ele concordou com a cabeça e saiu rapidamente do banheiro.

O que sobra

O episódio, como um todo, não durou mais do que cinco minutos. Algumas das teorias mais modernas da Física afirmam que há múltiplas dimensões e múltiplos universos, em que outras versões de nós vivem existências paralelas. Pois bem, naquele curto intervalo, acho que vislumbrei todas as minhas múltiplas vidas... aquela que terminava comigo acusado de homofobia, aquela em que eu cedia para não criar mais problemas... mas o único universo em que eu desejava estar, naquela hora, era aquele em que isto nunca tivesse acontecido. Fiquei congelado por mais alguns minutos, sozinho no banheiro, as luzes fluorescentes zunindo. O cheiro de desinfetante tornou-se ainda mais enjoativo. O ar úmido ficou ainda mais abafado.

Lavei as mãos. O rosto. Fiquei me encarando no espelho. Será que eu dei alguma bola pra ele? Será que, inconscientemente, eu passei por ele e dei a entender que queria que ele me seguisse? Será que eu fiz alguma coisa errada? Será que ele interpretou mal alguma coisa? Será, enfim, que o culpado fui eu??? E, neste momento, eu entendi o que uma vítima de assédio passa. A última pergunta, sempre, sempre, a que mais martela na cabeça e dói na alma é: foi minha culpa?