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O dia em que me apaixonei por uma subordinada (o amor nos tempos do assédio)

Yazar

Na dúvida, hoje, não me meto com mulheres no trabalho, sejam chefes, subordinadas ou colegas. Radical? Talvez... mas este não é um tempo dado a sutilezas...

O dia em que me apaixonei por uma subordinada (o amor nos tempos do assédio)

"Te ver e não te querer, é improvável, é impossível"... mas precisa (Banksy/Divulgação)

Fui casado por três anos. Por uma série de razões, não deu certo. Não houve traições, violência nem qualquer tipo de deslealdade da parte dela, nem da minha, graças a Deus. Aconteceu apenas que, um dia, tristemente, entendemos que a coisa não funcionara: por mais carinho, respeito e companheirismo que tivéssemos, não nos sintonizávamos mais e estávamos infelizes. Saí de casa, aluguei um sobradinho em Perdizes (que transformei numa melancólica tumba suja, escura e sem móveis), e vivi dois anos de luto. Como todo bom taurino (sim, a despeito da minha racionalidade, tenho minhas idiossincrasias!), mergulhei no trabalho. Fui promovido a editor e assumi uma pequena equipe. Apesar de eventuais alternâncias, ela era formada, sobretudo, por mulheres. Ressalte-se, aqui, que não foi uma decisão minha – a palavra final das contratações era da minha diretora. Então, quando deixei o luto do casamento desfeito, eu a conheci, e não demorou muito para que me apaixonasse.

Lembro-me de que o que mais me fascinava, nela, era o alto astral e sua disposição para trabalhar. No jargão de recursos humanos, ela era extremamente proativa. Também é desnecessário dizer que ela era muito inteligente. E, se há algo que me seduz, é a inteligência. Com o tempo, estabeleceu-se uma relação de camaradagem, orientações e dicas de apuração, bate-papos no almoço etc. Certo dia, ela propôs uma entrevista com o Maurício de Sousa, o famoso criador da Turma da Mônica. Claro que aprovei a pauta e, num momento de tietagem, disse-lhe que, se pudesse, eu iria no seu lugar, porque cresci lendo seus gibis e adoro o Horácio, aquele dinossauro filósofo de bracinhos curtos. Para minha surpresa, ela voltou não apenas com uma bela entrevista, mas também com um presente: Horácio, desenhado por ninguém menos que Maurício de Sousa, assinado e dedicado a mim. Emoldurei-o e até hoje está pendurado na minha parede!

“Fu...”

Foram gentilezas desse tipo, além de seu companheirismo, que me fizeram perceber, em certo momento, que a amava. Creia: quando me dei conta disso, o pensamento imediatamente seguinte foi “Fu...” Como eu poderia fazer isso? Eu era o chefe dela. Era responsável por pautá-la, orientá-la, editá-la e, em alguma medida, pela sua carreira. Frequentemente, eu a defendia junto à minha diretora, conhecida por todos na empresa como uma praticante contumaz de assédio moral. Sempre que me sentava para avaliar o desempenho de minhas e meus subordinados com ela, passava incontáveis horas desfazendo seus preconceitos, birras e conclusões precipitadas. Assim, procurava ser o mais cuidadoso possível para que uma palavra minha não os prejudicasse perante a direção. Eram jovens, talentosos, comprometidos e seus erros refletiam seu processo de amadurecimento, bem como as minhas falhas como editor e meu próprio amadurecimento. Em última instância, sendo eu o chefe, o erro era meu, não deles.

Lutei muito tempo comigo mesmo para esquecer esse amor, mas, sempre que ela aparecia meio tristinha, seja por problemas pessoais, seja por algum pepino na redação, minha maior vontade era abraçá-la, beijá-la e olhar bem nos seus olhos. “Tudo bem, vai passar, vamos resolver isso, estou aqui contigo...” – era o que queria lhe dizer nessas horas. Mas, vamos lá: respira fundo, faz cara de profissional e finge que está tudo bem.

Preto no branco

No que se refere a relações pessoais, sofro de uma timidez quase patológica. Pautado, entrevistando alguém ou em sala de aula, falo, argumento, escrevo... enfim, me escondo atrás da persona pública, esse personagem que tem roteiro e objetivo, e sobrevivo. Mas, na vida particular, às vezes não consigo perguntar que horas são. E não há nada pior, para um tímido, do que disfarçar o que sente. É lógico que, um dia, tudo desmorona. Chegou, então, o momento em que não conseguia mais guardar segredo. Eu sabia que não haveria chances. Confessar-me corresponderia a me atirar a uma tempestade em alto-mar no círculo polar - morreria afogado na congelante realidade. Então, decidi fazê-lo do modo mais asséptico possível. Enviei-lhe um e-mail, dizendo que: a) não conseguia mais aguentar, e precisava dizer que a amava; b) sabia que ela não me correspondia; c) dizia que ela não deveria se sentir obrigada a nada; d) pedia paciência até que eu a esquecesse; e) entenderia se ela quisesse mudar de editoria ou se ela pedisse para que eu mudasse de editoria; f) por garantia, ela deveria guardar aquele e-mail. Era a sua segurança de que eu nunca tentaria nada de inoportuno.

É claro que não há código de conduta que dê conta de uma situação dessas. A primeira e óbvia reação dela foi entrar em pânico. Ela ficou, literalmente, alguns dias sem falar comigo. Eu sabia que, por pior que fosse, eu deveria enfrentar as consequências do meu vacilo (me apaixonar por uma subordinada) e era minha obrigação conversar com ela e tentar acalmá-la. Enfim, consegui que fôssemos tomar um café no restaurante da empresa. Até hoje, me lembro da sua primeira frase: “Se eu não dependesse desse emprego, eu pediria demissão agora.” Lembro-me vagamente (porque fiquei completamente desnorteado) de lhe responder que compreendia, até onde poderia, seu susto, seu medo de que pudesse ser retaliada, sua insegurança e a quebra de confiança que isso representava. Disse-lhe que, se ela quisesse, eu estava disposto a conversar com minha diretora e pedir minha remoção para outra editoria. Passado algum tempo, ela se acalmou, realmente disse que estava desconfortável, mas me deu um voto de confiança para continuarmos nossa relação profissional.

Novos tempos

É óbvio que as coisas ficaram estranhas por certo tempo. Por via das dúvidas, não almocei mais sozinho com ela, parei de comentar de minha vida pessoal e evitei qualquer situação que pudesse constrangê-la, por mais que me doesse – afinal, não era puro e simples tesão que eu sentia por ela, mas amor, preocupação, zelo, cuidado, carinho... No fim, aparentemente, tudo se resolveu: consegui esquecê-la; ela continuou trabalhando sossegadamente; ficou triste, anos depois, com a notícia de que eu me demitira, cansado que estava do assédio moral de minha diretora; e ainda mantivemos amigáveis contatos por algum tempo.

Fico imaginando, porém, qual seria o fim dessa história hoje, quando a justa e urgente luta contra o fim do assédio sexual e pelo empoderamento das mulheres, por vezes, se confunde com a condenação de atos desajeitados e desaconselháveis, mas sinceros e humanos, como um chefe se apaixonar por sua subordinada. Apesar de todo o cuidado que tomei, de garantir explicitamente, por meio de um documento escrito, que não esperava, nem exigia, nem queria que ela se sentisse obrigada a qualquer contrapartida pelos meus sentimentos, eu seria acusado de assédio? Por via das dúvidas, por mais que a gente não mande no coração, desde então, minha decisão é: não me meto com mulheres no trabalho, sejam subordinadas, chefes ou colegas. Radical? Talvez... mas este não é um tempo dado a sutilezas...