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O dilema de Bolsonaro: pequeno demais para uns; grande demais para outros

Márcio Juliboni
Yazar
Márcio Juliboni

Entre ser apenas mais um numa estrutura gigante, e ser um elefante na sala, deputado não se encaixa em lugar nenhum

O dilema de Bolsonaro: pequeno demais para uns; grande demais para outros

O fora que Jair Bolsonaro tomou do PSDC nesta terça-feira (18), quando a legenda negou oficialmente qualquer interesse em tê-lo como candidato à Presidência, é um banho de realidade no estridente ex-militar. O episódio mostra o verdadeiro dilema de Bolsonaro: para alguns partidos, ele é pequeno demais; para outros, é grande o bastante para incomodar seus “donos”.

Por ora, o que se vê é o desejo efetivo do representante da ultradireita de sair do seu minúsculo PSC para viabilizar sua candidatura. Mas, quando bate à porta de legendas mais parrudas, como o PR do ex-governador fluminense Anthony Garotinho, é tratado como um grande nanico. É verdade que sua força entre conservadores e reacionários não pode ser ignorada. Afinal, 21% de intenções de votos (segundo o DataPoder360) não é de se jogar fora.

Mas grandes partidos têm grandes interesses e Bolsonaro parece não atendê-los. Primeiro, o tempo de TV com que contam, fruto de suas numerosas bancadas, é valioso para qualquer aspirante ao Planalto em 2018. E, em tempos de Lava Jato, “valioso” deve ser lido ao pé da letra – essas legendas vendem minutos a peso de ouro, como se viu nas delações. Por que, então, desperdiçar um bom negócio apenas para atender ao sonho de Bolsonaro? Não é por acaso, que o ex-capitão é cobiçado apenas como puxador de votos para a Câmara. O próprio PR, que estaria negociando sua filiação, não lhe garante até agora o direito a concorrer à Presidência. Ele até pode estar em ascensão, mas não tem cacife para desafiar velhos capitães da política tradicional. Seria apenas mais um no salão.

Sentando na janelinha

Quando se volta para partidos menores, como o PSDC de José Maria Eymael, as proporções se invertem. Bolsonaro é um gigante para essas legendas, que desejam apenas fazer sua figuração de sempre na disputa. Seria, portanto, um incômodo elefante no meio da sala, incapaz de ser ignorado. Isso causaria uma ciumeira danada entre os caciques encastelados na estrutura partidária. Afinal, por menor que seja, o repasse do fundo partidário sempre rende alguns milhões de reais por ano. Quem abriria mão de controlar esse dinheiro, considerando que um partido pequeno seria forçado a engolir o ex-capitão como uma liderança proeminente?

Por incrível que pareça, os movimentos de Bolsonaro revelam um idealismo ingênuo para os padrões brasileiros. Ele vem afirmando que busca um partido “honesto, patriota e cristão”. Mesmo que seja apenas retórica para entreter o eleitorado e posar de salvador da Pátria, não deixa de ser irônico: há tempos, não se veem partidos honestos, patriotas ou cristãos - e Bolsonaro é vítima, justamente, desses vícios que promete expurgar da política nacional.