ECONOMIA

O mercado adora ser feito de bobo por Temer (e a Previdência é a prova)

Márcio Juliboni
Autor
Márcio Juliboni

Analistas venderão a redenção dos danados em 2018. Cuidado! Errar é humano, mas persistir no erro virou estratégia!

O mercado adora ser feito de bobo por Temer (e a Previdência é a prova)

Como sempre, em 2018, tudo será melhor (Foto: Rafael Matsunaga/Agência Fotos Públicas)

Se há uma coisa de que o mercado não se cansa, é de ser tapeado pelo governo de Michel Temer. A última pegadinha em que os investidores, analistas e economistas em geral caíram foi o conto do vigário de que a reforma da Previdência seria aprovada neste ano. Ontem, a encenação começou a degringolar, quando o presidente do Senado, Eunício Oliveira (um dos caciques do PMDB de Temer), bateu cabeça e bateu boca com membros do governo sobre a data de votação. Nesta quinta-feira (14), o palco veio abaixo, quando o presidente da Câmara, Rodrigo Maia e o próprio Planalto informaram que o tema só será votado em 19 de fevereiro. Foi o bastante para que o mercado encenasse o papel de “cônjuge traído” e afogasse suas mágoas entre quedas da bolsa de valores e altas do dólar.

Ou o mercado não entende nada de política e é um tremendo “maria-vai-com-as-outras”, ou é pura especulação. Para mim, há de tudo um pouco nisso. Escrevo sobre economia e política há quase 20 anos e já encontrei muito, mas muito operador de mercado que realmente é um analfabeto político. Mas o que mais vi, para ser justo, são o que os cientistas cognitivos chamam de viés de refutação e viés de confirmação. As pessoas, qualquer pessoa, deliberadamente descarta, ignoram, minimizam informações que contradigam suas crenças e expectativas. Ao mesmo tempo, maximizam, superestimam e absorvem aquelas que reforçam o que já sabem ou o que esperam que aconteça.

Darwin explica

Trata-se de dois atalhos mentais que surgiram, ao longo da evolução, para acelerar a tomada de decisões. O problema é que, quando se anda no piloto-automático, processando tudo rapidamente por meio desses atalhos, a possibilidade de acabarmos em roubadas é bem grande. Uma parte dos investidores, economistas e analistas só foi “enganada” por Temer, porque se recusou a ver aquilo que estava bem na frente do nariz: o governo é fraco, sua base no Congresso é fisiológica e gelatinosa, a reforma da Previdência é um abacaxi impopular que nem presidentes legitimamente eleitos descascaram, e a proximidade da eleição transforma a matéria em um verdadeiro repelente de aliados. Simplesmente, não há condições políticas para aprovar algo desse tamanho, ainda que, racionalmente, a reforma seja necessária.

Mas, a cada veza que lia um relatório de mercado, uma reportagem ou conversava com algum analista, sempre ouvia a mesma resposta: a impopularidade de Temer é seu trunfo. Ele é o homem certo para fazer “o serviço sujo”, já que não pretende se reeleger. Pois é... Temer pode até não querer mais quatro anos como presidente, mas ele não aprova nenhuma matéria sozinho no Congresso. Sua base aliada quer sim, muito e desesperadamente, se reeleger. Não se trata de patriotismo ou de um irresistível chamado para servir a nação, mas de sobrevivência política. Com muitos deputados e senadores acuados pela Lava Jato, quem é louco de perder o foro privilegiado? O diabo é que, para mantê-lo, existe esse “incômodo” trabalho de, a cada quatro anos, pedir votos ao povo...

É justo dizer que parte do mercado nunca se deixou enganar pelas aparências de Brasília. Sabia que tudo não passava de conversa fiada para entreter o povo, enquanto o tempo passa. Como bons operadores sabem, investidor que é investidor mesmo sabe lucrar tanto na alta, quanto na baixa do mercado. Basta, para isso, montar as operações de “hedge” apropriadas (sim, agora falei difícil!). Assim, mesmo que a bolsa esteja em queda livre rumo ao inferno, bons gestores de carteira não perdem o sono. Apenas aproveitam-se da cegueira de quem se deixa tapear para ganhar mais dinheiro. Afinal, para cada esperto que lucra, há um bobo que perde.

Eles veem duendes

E haja bobo! No já distante 11 de setembro, quando a bolsa cravou 74.319 pontos, estabelecendo um novo recorde, escrevi um texto, aqui no Storia, afirmando que o mercado brincava de “me-engana-que-eu-gosto” com Temer. O jogo durou um mês mais. Em 13 de outubro, a bolsa chegou aos 76.989 pontos – o maior patamar de sua história, e uma valorização de 3% em apenas um mês. De lá para cá, contudo, começou a cair a ficha de que não haveria reforma alguma neste ano, levando a uma perda de 4% até anteontem. Com a trapalhada do governo e de Eunício Oliveira, ontem, e a confirmação de que a votação foi adiada para 2018, nesta quinta, o gráfico da bolsa desceu mais degraus. Por volta das 17h30, ela recuava 1,05%, a 72.148 pontos. Com isso, em apenas dois meses, a perda acumulada já chega a 6%.

Mas, se engana quem pensa que essa queda é pedagógica. Os investidores não aprendem. A próxima lorota é que a reforma será, finalmente, aprovada em fevereiro. Se já era difícil passá-la no Congresso neste ano pré-eleitoral, o que dizer de 2018, quando faltarão poucos meses para o teste das urnas? Haverá, contudo, analistas vendendo o paraíso na Terra e a redenção dos danados. Cuidado! Errar é humano, mas persistir no erro virou estratégia de mercado!