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O PT condenaria FHC, Temer e Aécio com base em delações?

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Se delação não é prova e as provas nada provam, por que os adversários de Lula deveriam ser condenados?

O PT condenaria FHC, Temer e Aécio com base em delações?

No clássico livro 1984, George Orwell inventa uma palavra (doublethink) que foi vertida para o português como duplipensar. Trata-se de um achado: a capacidade de afirmar e negar uma ideia ao mesmo tempo. Sempre que vejo petistas falando da Lava Jato, tenho certeza de que o duplipensar existe mesmo – e que o PT se tornou um mestre em novilíngua. O partido é capaz de usar os mesmos fatos e os mesmos princípios para condenar qualquer um que se oponha ao seu projeto de poder, ao mesmo tempo em que inocenta Lula e a companheirada de qualquer pecado.

Seu argumento fundamental é de que delações premiadas não são provas. É necessário apresentar evidências materiais para corroborá-las. Em que pese que delação sem provas é falso testemunho (com razão), sempre que se avança com outros elementos (planilhas, fotos, gravações, imóveis, transações financeiras), os petistas insistem: as provas não provam nada. São circunstanciais. São paranoia e fixação dos procuradores. São armação etc.

Teste de lógica

Mas vamos a um pequeno exercício de lógica que adoro propor aos meus amigos petistas (eu ainda os considero amigos; não sei se a recíproca é verdadeira). Troque Lula por Fernando Henrique Cardoso; o sítio de Atibaia pela chácara do tucano em Ibiúna; o triplex no Guarujá pelo apartamento em Higienópolis. Imagine que foi o filho de FHC, e não o de Lula, quem recebeu um belo monte de dinheiro para montar um torneio de futebol americano e apresentou um trabalho baixado da internet para justificar uma “consultoria de marketing esportivo”. Pense que o Instituto FHC, e não o Instituto Lula, é acusado de ocultar um terreno pago pela Odebrecht para ser a sua futura sede.

Imagine, ainda, que as planilhas do departamento de propinas da Odebrecht apontam uma conta chamada “Mestre”, e não “Amigo”, que contém milhões de reais. Em depoimento a Sérgio Moro, Marcelo Odebrecht, um delator assumido, afirma que a planilha “Mestre” representa o dinheiro reservado a FHC e era movimentada por seu ex-ministro da Fazenda, Pedro Malan, cujo codinome era "Real". Depois, a conta passou para Armínio Fraga, sob o codinome "Pós-Real". Ao mesmo tempo, vem à tona uma foto do tucano com o ex-presidente da OAS, Léo Pinheiro, na porta de um apartamento de cobertura em Higienópolis. O zelador afirma, em juízo, que FHC e seus familiares frequentavam o local. É demitido e se lança candidato a vereador.

Léo Pinheiro afirma, em juízo, que o imóvel é do ex-presidente. Sua defesa, no entanto, nega. Diz que não poderia sê-lo, já que foi dado em garantia pela OAS para dívidas. Diante de Moro, FHC afirma que esteve lá apenas uma vez, porque Léo Pinheiro era praticamente um corretor de imóveis querendo empurrar um apartamento “Minha Casa, Minha Vida” para ele. E que seria melhor perguntar detalhes à sua falecida esposa, Ruth Cardoso, que era a verdadeira interessada no apartamentão.

Vale para todos?

Agora, troque tudo isso por Aécio Neves, apartamento no Rio de Janeiro, fazenda em Cláudio, e o codinome “Mineirinho” (que consta, efetivamente, das planilhas da Odebrecht apresentadas à Lava Jato). Ou por Michel Temer (codinome "Sem Medo" na Odebrecht), reforma da casa da filha em São Paulo, mala de dinheiro de Rodrigo da Rocha Loures, gravação de conversa com Joesley Batista no escurinho do Jaburu. Com o adendo de que, efetivamente, Loures resistiu estoicamente a revelar quem era o destinatário dos R$ 500 mil em sua mala. Logo, só há uma “ilação” (como os advogados de Lula gostam de dizer) sobre quem era o Lorde Sith do caso.

Agora, convenhamos: alguém duvida de que os petistas, quaisquer petistas, não pensariam um segundo antes de condenar, nas ruas, nas redes sociais, nos botecos da Vila Madalena, FHC, Aécio e Temer? Não precisamos pensar muito para sabermos a resposta – muito menos, duplipensar...