ECONOMIA

O que o PT fará, se Lula for mesmo até as últimas consequências?

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Partido teria a coragem de dizer a Lula que já chega, em nome de sua própria sobrevivência?

O que o PT fará, se Lula for mesmo até as últimas consequências?

Prioridades: interesses de Lula não deveriam ficar acima dos do PT (Foto: Ricardo Stuckert)

O Partido dos Trabalhadores (PT) precisa tomar a decisão mais importante de sua história: embarcar na estratégia de “tudo ou nada” de Luiz Inácio Lula da Silva, ou se emancipar de seu fundador para garantir seu próprio futuro. É claro que a resposta para esse dilema é bastante difícil para uma legenda que nasceu, justamente, das lutas operárias lideradas por Lula no ABC do fim dos anos 70 e início dos 80. Não apenas sindicalistas e trabalhadores, mas também intelectuais, padres católicos progressistas, professores universitários e artistas praticamente fundaram um partido em torno de Lula, que já tinha visibilidade própria antes do PT ser criado. “Aposentá-lo” para seguir em frente é doloroso, melancólico, mas pode ser fundamental para que a legenda sobreviva e possa contribuir para uma esquerda e um Brasil melhores.

Há, basicamente, dois cenários para os petistas no ano que vem. No primeiro, eles mergulham de corpo e alma na campanha de Lula, assumem o bordão de que eleição sem ele é fraude, e transformam sua provável condenação em segunda instância no cavalo de batalha para continuarem vivos na política. Apoiarão, recurso após recurso, a briga de seu comandante para reverter a sentença, continuar no páreo e, eventualmente, vencer a eleição. Como já escrevi neste espaço ontem, esse caminho só interessa ao próprio Lula. Para o Brasil, representará uma insegurança jurídica tremenda. Para a esquerda, o atraso no surgimento de novas lideranças. Para o empresariado e os investidores, uma bela desculpa para suspender qualquer investimento e retardar ainda mais a pífia recuperação econômica. Mas, olhemos mais de perto para o PT.

Para os petistas, este caminho também é um belíssimo campo minado. Primeiro, porque a incerteza quanto à candidatura de Lula dificulta sobremaneira a montagem de alianças regionais. Como selar um acordo com aliados e criar palanques fortes nos Estados, se nem se sabe se o ex-presidente estará legalmente apto a subir neles? Concretamente, não está claro onde os aliados se meterão, se embarcarem na candidatura petista. Trata-se de um navio sólido, que enfrentará furiosas tempestades em alto-mar, a ponto de deixar muitos passageiros tontos, mas que chegará ao se destino com todos a salvo? Ou é o velho clichê do Titanic e, a menos que pulem fora a tempo, os aliados naufragarão com Lula? Não é à toa que, enquanto partidos de direita e de centro já se paqueram no meio do salão de bailes, o PT continua rodopiando sozinho, com a vassoura na mão.

Companheiros, companheiros... eleições à parte

Mas, suponhamos que, contra todo o bom-senso, os petistas insistam em marchar com Lula até o fim – seja ele qual for. O partido não é apenas o ex-metalúrgico. Cada vez mais, é a soma de interesses de outros “companheiros” que não são, necessariamente, lulistas – veja-se, por exemplo, a corrente liderada por Tarso Genro. Que candidato à eleição ou à reeleição ao Senado, à Câmara, às assembleias estaduais ou ao governo de algum Estado está disposto a se sacrificar em nome de seu líder supremo, supremamente enrolado? Em tempos de Lava Jato, quem se arrisca a perder o foro privilegiado no Congresso? Isto porque, se Lula ficar pelo caminho, muitos dos que o acompanharem até ali também ficarão. Pouco importa que denunciem a eventual cassação da candidatura de Lula como outro golpe, sustentado numa mentirosa sentença criminal endossada pela mídia golpista. Para o cidadão comum, essa conversa convence cada vez menos.

A saída honrosa para o PT seria convencê-lo a retirar sua candidatura, encontrar alguém que assuma a missão de defendê-lo publicamente pelos palanques Brasil afora, e preparar sua reconstrução. O que não se sabe é se alguém, dentro do partido, teria a coragem de dizer a Lula que já é hora de parar. A única certeza é que os icebergs já estão à vista.