ECONOMIA

O que Trump nos alerta sobre a “onda Doria”

Márcio Juliboni
Author
Márcio Juliboni

Assim como o empresário-presidente americano, Doria quer ser visto como não-político e bom gestor. Se sairá melhor que Trump?

O que Trump nos alerta sobre a “onda Doria”

(Foto: Cesar Ogata/SECOM)

Políticos não perdem tempo paparicando quem não tem o que lhes oferecer. É por isso que os rapapés do presidente da República, Michel Temer, ao prefeito de São Paulo, João Doria, precisam ser vistos com lupa. Os salamaleques ocorreram nesta manhã de segunda (7), durante uma cerimônia na capital paulista. Para Temer, Doria é “alguém que entende como ninguém os problemas do país.” O peemedebista não está sozinho. Nos últimos dias, Doria atrai manifestações públicas de apoio de todos os lados. É um sinal de sua ascensão no PSDB como liderança e potencial candidato ao Planalto em 2018. Em comum, enfatizam sua juventude, sua origem “não política” e sua habilidade como homem de negócios. O problema é que já vimos esse filme há pouco tempo, e seu protagonista, Donald Trump, está fazendo um verdadeiro pastelão.

É verdade que Doria parece, até o momento, muito mais equilibrado que Trump. Não se imagina o prefeito paulistano se gabando de agarrar mulheres pelas partes íntimas. Mas o ponto, aqui, é quanto esses selos de “homem de negócios” e “não-político” são realmente úteis ao Brasil sufocado por dois anos de recessão e perigando engatar o terceiro.

Até agora, objetivamente, pouco se viu da gestão Doria. A Operação Cidade Linda é muito mais marketing do que ações efetivas. Serviu para comprar uma briga desnecessária com grafiteiros e para postar vídeos com alfinetadas e caneladas nos adversários. O alvo preferido é Luiz Inácio Lula da Silva, o que reforça a impressão de que, por mais que negue, Doria embala sim o desejo de concorrer à Presidência.

Tropeçando no básico

A parceria com hospitais privados para zerar a fila de exames da rede de saúde municipal, o famoso Corujão, esbarrou em algo embaraçosamente trivial: pessoas humildes, moradoras da periferia, simplesmente não conseguiam chegar ao local da consulta tarde da noite ou de madrugada por pura falta de transporte público. Um gestor experiente não teria pensado nisso, antes de lançar o programa?

A intervenção na Cracolândia serviu apenas para espalhar os dependentes, criando, assim, minicracolândias em vários pontos do Centro da cidade. Ficaram claros, a falta de planejamento e o casuísmo das medidas – algo muito frustrante para quem se vende como um administrador de primeira. Se a operação fosse, mesmo, estudada com antecedência, não se veriam, nos dias seguintes, embates frequentes entre policiais e viciados, nem os protestos da população do entorno, reclamando que o problema apenas mudou de lugar.

Sua recente viagem à China para vender oportunidades de investimento em São Paulo deixou boas fotos em seu Facebook, mas poucos negócios concretos. Doria já visitara o Oriente Médio logo no início de sua gestão. Ainda assim, passados alguns meses, não se viu nada de efetivo daquela viagem. Seu pacote de projetos inclui a privatização de parques e outras áreas municipais, como o Pacaembu, o ginásio do Ibirapuera e Interlagos. A dificuldade óbvia é como tornar esses empreendimentos lucrativos e, portanto, atraentes para a iniciativa privada. Até o momento, há poucas soluções convincentes. Não deixa de ser curioso, já que se espera que um “prefeito-gestor-não-político” já tivesse uma resposta na ponta da língua.

Mandar fazer não adianta

Trump, nos Estados Unidos, assumiu o poder com o mesmo discurso de homem de negócios que só entrou na política para mudá-la. Gerir um país, segundo o polêmico republicado, seria o mesmo que gerir uma grande empresa: basta mandar fazer. Infelizmente, a política vive de vergonhosos melindres, muxoxos, suscetibilidades e fisiologismos em geral, mas também de saudável e necessário debate público de ideias, confronto respeitoso de visões, costuras de consenso.

Um gestor privado não precisa buscar consensos. Deve limitar-se a extrair o máximo rendimento da companhia. Se algo estiver em seu caminho, basta eliminá-lo. É o que Trump faz, a torto e a direito, na Casa Branca. Demite assessores poucos dias depois de nomeá-los, atropela ritos do Congresso e da Presidência etc. Se Doria adotar o mesmo estilo “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, não irá longe no Palácio do Planalto. Em política, para o bem e para o mal, mandar fazer não é um bom jeito de garantir que as coisas sejam feitas.