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O silêncio dos indulgentes (ou o que une coxinhas e mortadelas)

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni
O silêncio dos indulgentes (ou o que une coxinhas e mortadelas)

Por trás de todas as ofensas trocadas pela imprensa, pelas redes sociais e pessoalmente, coxinhas e mortadelas estão mais próximos do que nunca. O que os une? Uma envergonhada autocomplacência. Em bom português: é cada vez mais difícil discutir política e protestar contra o partido adversário, quando todos estão afundados até o cocuruto na pocilga da corrupção exumada pela Lava Jato. São os sujos falando dos mal lavados.

Mortadelas e coxinhas criticam violentamente a roubalheira do outro time, os favorecimentos políticos, o compadrio – faz parte do teatrinho. Mas calam-se vergonhosamente diante dos malfeitos de seu próprio time. Vejamos dois exemplos práticos. Do lado dos mortadelas, a fracassada greve geral do último dia 28 combatia as reformas propostas por Temer. Omitiram, convenientemente, que os projetos foram defendidos em vídeo por Dilma, quando ainda era presidente (e tinha Joaquim Levy na Fazenda), e são tocados por Meirelles, que Lula tentou até o fim emplacar na Esplanada dos Ministérios como fiador do governo de sua pupila.

Do lado dos coxinhas, o embaraço também é divertido. As novas “lideranças populares” e seus miquinhos vestidos de verde e amarelo lotaram avenidas para demonizar o PT e exigir a saída de Dilma. Macaquearam Eduardo Cunha. Posaram orgulhosamente para fotos ao lado de Temer e de Moreira Franco, no mesmo dia em que o primeiro promoveu o segundo ao cargo de ministro, apenas para lhe conferir foro privilegiado. Agora, relutam em convocar novos protestos contra a corrupção. A mais próxima está marcada para o fim de agosto. Por ora, limitam-se a declarações protocolares em redes sociais...

É verdade que o povo não precisa, necessariamente, esperar a convocação de lideranças de direita ou de esquerda para sair às ruas. Basta lembrar de junho de 2013, quando manifestações espontâneas (?!?!) pipocaram pelo Brasil. Mas mesmo isso parece improvável atualmente. Por que? Não se pode alegar que a população ignora o que se passa. Já não há inocentes no país. Uns, porque sabem da corrupção. Outros, porque são parte dela. O silêncio que ouvimos, portanto, é o silêncio dos indulgentes.