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Ódio: a verdadeira herança maldita que o Brasil deve superar

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

O debate público de ideias, hoje, não ocorre numa ágora grega, mas num octógono de UFC. Quem se expõe é um inimigo a ser finalizado

Ódio: a verdadeira herança maldita que o Brasil deve superar

Há um mês, iniciei entusiasmado minha colaboração com o Storia, cuja proposta é “furar a bolha” em que a internet, em geral, e as redes sociais, em particular, nos meteram. Cutucar preconceitos, dogmas e radicalismos. Criticar conclusões apressadas e tendenciosas. Alertar os leitores de que o pior erro é o autoengano voluntário. Trata-se de uma das tarefas mais nobres que um jornalista pode receber! E também a mais difícil. Basta ver a área de comentários dos artigos. Mas o que mais espanta e preocupa é como o ódio se transformou em um escudo, um campo de força com que as pessoas repelem as dúvidas que alguém levanta sobre suas opiniões. Perguntas, hoje, tornaram-se coquetéis molotov capazes de incendiar a sociedade.

Outro dia, brinquei com um amigo que não há mais “debate de ideias”, apenas “abate de ideias”. O totalitarismo e a intolerância vestem camisetas de todas as cores, frequentam com a mesma letalidade grupos de discussão da esquerda e da direita. Já vi militantes de ambos os lados desejarem, por escrito, a morte de seus adversários políticos. Já fui banido de grupos de discussão por discordar. Fora as ofensas de praxe: palavrões e toda sorte de “VTNC” que se imagine. Sempre que vejo isso, respiro fundo, fecho os olhos e mentalizo o meu rivotril interior. O debate público de ideias, hoje, não ocorre numa ágora grega, mas num octógono de UFC. Quem se expõe é um inimigo a ser finalizado.

O que me preocupa não é o quanto podem me ofender; é o quanto essa sulfurosa atmosfera de ódio sufoca a democracia, justamente quando nos aproximamos de uma nova eleição. De um lado, a esquerda, com Lula e o PT à frente, esperam lavar a alma com uma chuva de votos, ungindo-se novamente com a legitimidade do povo para expiar seus pecados. De outro, conservadores e reacionários, a pretexto de que a crise brasileira é, antes de tudo, moral, endossam cada vez mais candidatos a tiranos.

Te pego em outubro

Mas há algo que une polos tão distantes da política nacional: uma raiva impiedosa, digna de Inquisição espanhola, em relação ao outro lado. Sob esse clima, as eleições de 2018 não servirão para reunificar o país e pacificá-lo, como pregam alguns ingênuos ou mal-intencionados. Servirão para acirrar ainda mais o conflito, já que eleitores de todos os lados encaram a votação como uma guerra, o dia da vingança contra o inimigo.

Seria, por isso, sensato, recomendável, urgente que os farrapos de liderança política que ainda nos restam baixassem o tom dos ataques aos rivais. O problema é que, à medida que a campanha ganhar as ruas, veremos justamente o contrário. Para se eleger, em 2002, Lula vestiu o figurino do “Lulinha paz e amor”. Pós-mensalão e com a Lava Jato em campo, para reeleger Dilma Rousseff, 12 anos depois, o ex-presidente, em parceria com o marqueteiro (e delator em Curitiba) João Santana, inventou o “nós contra eles”. Quem não queria o PT no poder era uma “elite branca de olhos azuis”. Agora, com a missão de defender seu legado e em guerra com Sérgio Moro, Lula deve desferir os ataques mais mortais de sua trajetória política. Será o “Lulinha faz o terror”...

Tampouco os partidários da direita querem baixar a bola. Basta lembrar que o atual segundo colocado nas pesquisas é ninguém menos que Jair Bolsonaro, da ultradireita reacionária e conservadora, que flerta com o militarismo e o autoritarismo, menospreza minorias e pretende tocar o país como quem comanda uma tropa. O que diz ou escreve em suas redes sociais torna-se sagrado para seus seguidores. Como ele age como incendiário e não como bombeiro no debate político, seus apoiadores tornaram-se piromaníacos dispostos a queimar vivo “esse lixo de esquerdopatas”.

Até onde a vista alcança, não há nada parecido com um movimento de pacificação social e política. Daqui, o que se enxerga é a escalada das hostilidades e dos ataques, das escaramuças de Facebook, das guerrilhas digitais, dos MAVs, dos robôs poluindo áreas de comentários e perfis pessoais com notícias falsas e agressivas contra o rival. Mais dia, menos dia, contudo, essa intolerância vazará para o mundo real. E, aí, todos nós estaremos lascados... é melhor pararmos, enquanto ainda há tempo.