ECONOMIA

Olavo de Carvalho quer consertar um Brasil que não existe

Márcio Juliboni
Yazar
Márcio Juliboni

Olavão pede que os brasileiros defendam um país que só ele enxerga lá de sua residência, nos Estados Unidos

Olavo de Carvalho quer consertar um Brasil que não existe

(Foto: Reprodução/ Canal de Leandro Ruschel / YouTube)

O filósofo conservador Olavo de Carvalho não gostaria nada da entrevista do militante de direita Olavo de Carvalho, publicada nesta terça-feira (10) pela Folha de S.Paulo. Primeiro, porque Olavão, como costuma ser tratado pela sua legião de fãs, demonstrou na reportagem vícios que o filósofo autoexilado nos Estados Unidos condenaria. Segundo, porque Olavão, o eleitor de Jair Bolsonaro, receitas fórmulas para curar um Brasil que, simplesmente, não existe. Impossível? De modo algum. A história está cheia de pensadores que se embananam, quando descem do reino das ideias para a irritante balbúrdia do mundo real.

Vamos por partes e comecemos pela segunda questão. A certa altura da reportagem, Olavo de Carvalho afirma que se dispõe a aconselhar qualquer presidenciável, e se ressente de ter ganhado um bolo de Bolsonaro, cujo filho havia arranjado um encontro com o filósofo ao qual o ex-capitão do Exército faltou. Seu conselho para todos que o procurarem será o mesmo, segundo ele: “É preciso encontrar o caminho pelo qual o Brasil possa deslizar por entre as malhas da dominação globalista e preservar um pouco da sua soberania, da sua identidade, da sua cultura.”

Aqui, há uma baita derrapada do papa dos conservadores tupiniquins. Carvalho encara a identidade e a cultura brasileiras como algo já completo e bem definido - um monumento erigido pelos brasileiros ao longo de cinco séculos. Logo, seria muito fácil saber o que os nacionalistas deveriam preservar contra a “dominação globalista”: os valores da civilização verde-amarela. Mas... mas... quais são mesmo esses valores? Carvalho simplesmente não toca no ponto essencial da trajetória de nosso país: somos um povo em formação, um cadinho de culturas africanas, ibéricas, indígenas e de imigrantes de todo o mundo. Não somos, nem de longe, um povo puro, ariano, com traços étnicos, linguísticos, culturais e históricos perfeitamente homogêneos. Como falar de uma cultura e uma identidade brasileiras, quando a verdadeira riqueza do Brasil, como nos lembra o filósofo italiano Domenico De Masi, é justamente o nosso pluralismo religioso, étnico, cultural? Nossa força é, justamente, sermos mestiços!

Simplistas

No livro O Futuro Chegou (Editora Casa da Palavra), De Masi afirma: “A mistura de fatores tão diversos, que em outros contextos resultaria destrutiva, no nosso caso é benéfica. O conceito de ‘brasilidade’ remete imediatamente ao encontro e à relação interpessoal. As relações englobam os indivíduos. O individualismo assume uma acepção negativa. Viver significa ‘ter relações sociais’. Saudade significa interrupção infeliz dessas relações. À harmonia do físico, à sensualidade e à saúde acrescentam-se qualidades psicológicas como a amizade, a cordialidade, o senso de hospitalidade, a sociabilidade, a generosidade, o bom humor, a alegria, o otimismo, a espontaneidade, a criatividade. Por isso, a cultura brasileira é amada em todo o mundo: nunca ninguém teria bombardeado as Torres Gêmeas se elas estivessem localizadas no Brasil.”

O risco dessa visão conservadora de “preservar nossa identidade e nossa cultura” é o que estamos vendo agora na prática: já que não há uma única cultura, nem uma única identidade brasileira, os conservadores, de modo autoritário e arbitrário, elegem qual cultura e qual identidade, no meio dessa geleia geral, devem ser preservadas como as legítimas representantes do Brasil. Nada mais antibrasileiro, antinacional, do que querer enquadrar toda a riqueza de modos, costumes e raças do país na régua conservadora de Carvalho e seus seguidores. É por isso que os progressistas os irritam tanto. O que Olavão e suas Carvalhetes atacam histericamente como “relativismo moral”, os progressistas veem como aquilo que de fato é: ser brasileiro é cultivar a diversidade. Isso, sim, é digno de ser preservado e amado neste país. Pena que Olavão morra de amores pelo Brasil, morando nos Estados Unidos...