ECONOMIA

Paparicos de Temer ao mercado não garantem seu futuro

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

São as reformas, como a trabalhista, que agradam empresários e investidores, não o presidente

Paparicos de Temer ao mercado não garantem seu futuro

Parte da imprensa e dos aliados de Michel Temer vendeu a aprovação da reforma trabalhista, nesta terça-feira (11), como uma demonstração de força do Planalto, em meio à vergonhosa crise política e econômica. Para esses comentaristas voluntariosos, trata-se de um fato positivo que prova que Temer tem condições de seguir até 2018 e implantar as mudanças de que o Brasil necessita. Muita calma, nesta hora. Simplesmente, não é isso.

A agenda de reformas (trabalhista, previdenciária e tributária) pertence e sempre pertenceu ao mercado. São os empresários e investidores que empunham essas bandeiras. Por isso, qualquer aspirante à Presidência com um mínimo de cérebro (ou despudor) vai paparicar os donos do capital com promessas de que encamparão essas causas e farão de tudo para concretizá-las.

Um grande exemplo desses salamaleques é a já histórica (e ainda polêmica) “Carta ao Povo Brasileiro” que o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva publicou às vésperas da eleição de 2002. Seu objetivo era claro: garantir que respeitaria contratos e tocaria a economia de acordo com a cartilha bem-comportada preconizada por aqueles que, até então, eram seus inimigos em discursos de porta de fábrica e em palanques pelas periferias do Brasil. Como disse, maliciosamente, Delfim Netto à época: o governo é como um violino – se toma com a esquerda, mas se toca com a direita. Neste sentido, Lula foi um excelente violinista.

Da mesma forma, Temer segurou-se até agora na cadeira, mediante as promessas de que fará tudo o que o mercado deseja. Sem apoio popular (lembram-se dos pífios 7% de popularidade?), com uma base aliada de meter medo em Júlio César, acossado pela Lava Jato, o presidente e seus aliados vivem da autoilusão de que a aprovação das reformas lhes garantirá a sobrevivência política.

Despachantes de luxo

O mercado não tem ídolos, nem candidatos. Tem expectativas de lucros. Qualquer um que se mostra minimamente gabaritado para atendê-lo será “apoiado” ou, pelo menos, “tolerado”. Foi assim com Fernando Collor de Mello, vendido como o modernizador da economia de que o país precisava após a redemocratização. Foi assim com FHC, com o Plano Real e a queda da inflação. Foi assim com Lula, para desgosto e embaraço de quem o seguia caninamente.

Não é por acaso que, nos últimos dias, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, vem adotando um discurso mais “institucional” em relação às reformas. Maia, que exibia uma fidelidade de pacto de morte a Temer, começou a afirmar que a agenda de reformas pertence ao Brasil e deve ser tocada por quem quer que esteja com a faixa presidencial. Não tenham dúvidas: se empresários e investidores acharem que Maia pode mesmo defender seus interesses, Temer já era. No Brasil, como em muitas partes do mundo, o capital não tem candidatos; tem despachantes de luxo no centro do poder. E, como todo despachante, devidamente remunerado pelo cliente.