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Para Lula e o PT, a Lava Jato só vale para os inimigos

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Material de delações, gravações e prisões preventivas servem para exigir a saída de Temer, mas não para condenar o líder petista

Para Lula e o PT, a Lava Jato só vale para os inimigos

(Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula/ Agência Fotos Públicas)

Bastou que Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda de Luiz Inácio Lula da Silva e ex-chefe da Casa Civil de Dilma Rousseff, fizesse um preâmbulo do que sabe sobre os porões dos governos petistas a Sérgio Moro, para que o PT o crucificasse. Dilma o chamou de mentiroso, a defesa de Lula o classificou como “desesperado” e a cúpula do partido, em nota, afirma que Palocci renunciou ao compromisso com a verdade apenas para se salvar. O curioso, nisso tudo, é a ambiguidade com que o PT e a esquerda lidam com a Lava Jato. Em bom português: são os primeiros a repudiar qualquer informação que comprometa Lula, e também os primeiros a aproveitar revelações que abatam inimigos.

As críticas do PT à operação são amplas: trata-se de um conluio da elite para acabar com Lula, o pai dos pobres; seus métodos são de dar inveja à Inquisição; a prisão preventiva e a prisão em segunda instância são os instrumentos modernos de tortura com que os malvados procuradores arrancam confissões de vítimas seviciadas; delações são manipuláveis; delações não são prova; a mídia golpista endossa acusações sem fundamentos contra Lula e seus companheiros; e por aí vai.

Do vinagre para o vinho

É claro que atropelar o Estado de Direito para exercer Justiça significa dar aval a justiceiros em vez de operadores da lei. Mas o problema desses ataques é embaraçosamente simples: mostram como o PT, Lula e a esquerda em geral são esquizofrênicos ao lidar com a Lava Jato. O movimento “Fora Temer”, por exemplo, é sustentado pela gravação da conversa entre Joesley Batista e o presidente Michel Temer. Quando os grandes jornais estamparam seu teor nas manchetes, o PT não saiu a campo, criticando o sensacionalismo, ou o vazamento seletivo de informações, e ignorou que isso ocorreu no âmbito da Lava Jato. Instantaneamente, a operação passou a ser crível. O tão execrado procurador-geral da República, Rodrigo Janot, passou à condição de herói ao denunciar Temer ao STF. O ministro Edson Fachin, relator do caso no Supremo, foi saudado por acolher a denúncia e abrir o inquérito.

Outro caso que tem tudo para fazer petistas compartilharem notícias da Lava Jato é a prisão de Geddel Vieira Lima. Convenientemente, o partido omite que Geddel foi ministro de Lula e de Dilma Rousseff, e lembra apenas que ele foi indicado pelo PMDB para a vice-presidência da Caixa Econômica Federal. A providencial amnésia ocorre, quando deixam de reconhecer que indicação sem autorização não vale nada. Geddel só chegou onde chegou na máquina pública, devido à anuência dos governos petistas. Mas, agora, o político baiano é apontado apenas como um fiel escudeiro de Temer, que o representava em negociatas até ser apeado do poder.

Tudo é relativo

Para “provar” essa relação de consanguinidade corrupta, os petistas recorrem a trechos da gravação de Joesley com Temer, em que o empresário pergunta com quem pode negociar assuntos de interesse mútuo, visto que Geddel saíra de cena. A mesma consistência de provas é sustentada pelo PT, no que se refere ao pedido de R$ 2 milhões do senador tucano Aécio Neves a Joesley. Um blog de esquerda chegou a ponto de afirmar que Janot, em Brasília, fizera mais pela Lava Jato e pelo combate à corrupção do que Sérgio Moro em tantos meses de investigação. O motivo do elogio? Não é óbvio? Janot está com os bambus que transforma em flechas contra os inimigos do PT. Já Moro está flechando Lula – algo inadmissível para seus companheiros. Haja relativismo moral.