LAVA JATO

PMDB expulsa Kátia Abreu e fica com Cabral (e quer ser levado a sério!)

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Se a senadora feriu o código de ética do partido, e o ex-governador não, é de se perguntar que ética é essa – uma pergunta retórica, claro

PMDB expulsa Kátia Abreu e fica com Cabral (e quer ser levado a sério!)

Cabral preso: troféu "Joinha" para a ética do PMDB (Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil)

Quando Dilma Rousseff levou a senadora goiana Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura, achei que era mais uma prova de que os governos petistas adoram atacar a elite pelos palanques da vida, mas adora ainda mais adulá-la pelos corredores de Brasília. Afinal, nunca é demais lembrar que a parlamentar ganhou o prêmio “Motosserra de Ouro” de ativistas ambientais por sua sanha desmatadora. E também deve-se recordar que Dilma ficou por um triz de ser madrinha de casamento de Kátia. Só não foi porque, politicamente, pegaria muito mal. De qualquer modo, é preciso reconhecer que a senadora foi corajosa e coerente com suas posições: apoiou Dilma até o fim contra o impeachment, às vezes, com mais ímpeto que os próprios petistas. Agora paga por sua rebeldia, ao ser expulsa do PMDB, que alega que ela feriu a ética partidária, ao não acatar às orientações na votação.

Ainda que a decisão seja da Comissão de Ética (?!?!?) do partido e, portanto, Kátia ainda possa recorrer contra sua expulsão à direção nacional do PMDB, o episódio é revelador. A própria senadora deu o tom, ao declarar que foi “expulsa exatamente por não ter feito concessão à ética na política. Fui expulsa por defender posições que desagradam ao governo. Fui expulsa pois ousei dizer não a cargos, privilégios ou regalias do poder. A mesma comissão de 'ética' não ousou abrir processo contra membros do partido presos por corrupção e crimes contra o país.”

Bancada de Bangu

Pois é. Ainda são peemedebistas de carteirinha uma série de condenados pela Justiça. Apenas para citar o exemplo mais escandaloso, basta lembrar do ex-governador Sérgio Cabral, condenado a 45 anos de prisão por todos os esquemas de corrupção em que se meteu, que alcançam cifras absurdas. Ao retornar brevemente à presidência da Assembleia Legislativa do Rio, o deputado Jorge Picciani defendeu enfaticamente a permanência de Cabral no PMDB. Presidente da legenda no Estado, Picciani assim se manifestou sobre um eventual processo de expulsão do correligionário, segundo o G1:

"Não, de forma nenhuma. Cabral tem serviços prestados ao PMDB enormes, está fora da vida partidária. Evidentemente não participa. Seria uma decisão inócua expulsar alguém que não está participando. Não faço política dessa forma. Sou pragmático. Não vejo que efeito possa ter".

Só pra constar

Ironicamente (ou não), dias depois, Picciani voltou à prisão, após os desembargadores do 2º Tribunal Regional Federal anularem, por unanimidade, a vergonhosa decisão da Arlej de cancelar sua detenção temporária pela força-tarefa da Operação Cadeia Velha, um desdobramento da Lava Jato que apura um esquema de corrupção no Rio, envolvendo políticos e empresários do setor de transporte público. Tampouco Picciani está na mira da Comissão de “Ética” do PMDB, assim como o ex-ministro Geddel Vieira Lima, em cujo bunker estavam os famosos R$ 51 milhões. Também continua no PMDB, o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, preso há tempos pela Lava Jato.

Se Kátia Abreu feriu tão irremediavelmente a ética do PMDB, e os presos pela Lava Jato não, é de se perguntar qual é, enfim, a ética do partido. Antes que vocês, caros leitores, riam da ingenuidade deste jornalista, um adendo – trata-se apenas de uma pergunta retórica!