POLÍTICA

Por que a eleição de 2018 será o inverso da de 1989 (e isso é muito ruim)

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

O Brasil nunca esteve tão perto de escolher, democraticamente, acabar com a democracia

Por que a eleição de 2018 será o inverso da de 1989 (e isso é muito ruim)

A eleição presidencial de 1989 é cada vez mais lembrada, por cientistas políticos e opiniudos em geral, para explicar o que pode acontecer no ano que vem. O que teriam em comum, segundo os estudiosos, é a rediscussão do projeto de Brasil que queremos. Nesses momentos, todas as propostas são postas na mesa e isso significa, na prática, um grande número de candidatos que representam a pluralidade do debate. É o que os especialistas chamam de eleições de refundação. Em 1989, na primeira eleição direta após 21 anos de ditadura militar, nada menos que 22 concorrentes disputaram a Presidência. Mas, olhando com mais calma e menos rótulos, é possível notar grandes diferenças, capazes de transformar 2018 no oposto de 1989 – e isso seria muito ruim para o país.

Vamos começar pelo cenário. Vinte e oito anos atrás, o Brasil dava adeus aos militares, à falta de liberdade política, ideológica e de expressão, e olhava ansioso para o futuro. Éramos um país pobre. Sofrêramos como um cão sem dono a crise econômica dos anos 80. Vimos a glória e o desastre dos planos Cruzado I, Cruzado II e Verão, lançados por José Sarney, um improvável presidente acidental, que herdou a faixa com a morte prematura de Tancredo Neves, eleito indiretamente pelo colégio eleitoral para ser o primeiro presidente civil da Nova República. Em 1989, portanto, os brasileiros teriam a chance de passar tudo isso a limpo.

Novinho em folha

Era natural, portanto, que as forças políticas reprimidas durante duas décadas viessem a público para se apresentar sem medo de prisões, torturas e mortes. Havia opções para todos os gostos. Tudo era novinho em folha no cardápio político nacional: fazia apenas nove anos que o PT fora fundado, e Luiz Inácio Lula da Silva ainda era um metalúrgico que metia medo em empresários (basta lembrar do então presidente da Fiesp, Mário Amato, dizendo que o empresariado deixaria o país, caso Lula vencesse). O PSDB, então, era ainda mais jovem: fora fundado em 1988 para representar a socialdemocracia, com Mário Covas como candidato. Havia, também, esteios respeitáveis da luta pela redemocratização, como Ulysses Guimarães, que concorreu pelo PMDB; e Leonel Brizola, que fustigava os generais via PDT.

O que se vê hoje, contudo, não lembra em nada aquele otimismo de quase 30 anos atrás. O esperado grande número de candidatos, em 2018, não reflete o vigor do debate político atual. Pelo contrário: espelha exatamente o esgotamento das propostas e sua substituição por projetos pessoais de poder. Lula, se conseguir formalizar sua candidatura, se preocupará apenas em defender sua biografia e atacar a Lava Jato. O PT, seu partido, estará longe de ser a estrela-guia dos eleitores na busca pela ética e pela moralidade na política, pela luta impiedosa contra a corrupção dos grandes empreiteiros e pelo fim dos mimos públicos ao capital.

Geraldo Alckmin e João Doria trocam cotoveladas pelo direito de representar o PSDB. Agora surge a possibilidade de Doria deixar o partido e disputar o Planalto por outra sigla, como o DEM ou o PMDB. Se isso ocorrer, não significará a emergência de uma nova ideologia. Alckmin estará à frente de um arremedo de PSDB, desacreditado e desgastado pela sua relação esquizofrênica com o governo de Michel Temer. Já Doria terá de explicar muita coisa. Como alguém que se apresenta como gestor, e não como político, passa mais tempo em articulações políticas, do que administrando a maior cidade do país? Mais: por que alguém que não liga para política insiste em ser presidente? Outra: como dizer que vai esterilizar a máquina pública da corrupção que a infesta, lançando-se pelo PMDB ou pelo DEM, cujas fichas corridas na Lava Jato crescem a cada dia?

Ilusões perdidas

Se a eleição de 1989 era vista como o anúncio de novos e promissores tempos para o Brasil, a de 2018 será a caricatura de um fim amargo para as nossas esperanças. A taxa de rejeição dos principais pré-candidatos ultrapassa os 50%. A proporção de eleitores dispostos a votar em branco ou anular está acima de 30%. E, o pior de tudo: as falcatruas denunciadas pela Lava Jato e dois anos de recessão empurraram os brasileiros para uma descrença sem precedentes em relação à democracia. É cada vez maior o número de pessoas que defendem a intervenção militar. O movimento já está tão à vontade, que até um general da ativa, Antonio Hamilton Mourão, disse literalmente que, ou a Justiça acaba com a corrupção, ou os militares o farão. Apesar de toda a gritaria da imprensa, o governo foi incapaz de puni-lo.

Mesmo que não cheguem ao extremo de defender um novo golpe, há eleitores pregando um presidente que fale grosso, capaz de exterminar corruptos onde quer que estejam. Seu ídolo é o ex-capitão Jair Bolsonaro, em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto. O discurso autoritário e moralista ganha adeptos, diante da conversa mole de políticos tradicionais que usam o verbo e a verba com igual desfaçatez. O Brasil nunca esteve tão perto de escolher, democraticamente, acabar com a democracia.