ECONOMIA

Por que não precisamos de um simplório presidente “nacionalista”

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A independência de um país é diretamente proporcional ao dinheiro que possui para andar sozinho, e, neste quesito, o Brasil é especialista em se humilhar com o pires na mão

Por que não precisamos de um simplório presidente “nacionalista”

Que dureza: no Brasil, dinheiro na mão é vendaval (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

Sim, sim, sim... o título é forte e já vejo pedras nas mãos de alguns leitores. Mas, vamos lá: o Brasil não precisa de um presidente que defenda um nacionalismo simplório, mas de alguém que defenda o que for melhor para o seu desenvolvimento. É claro que o mote deste texto é a declaração dada neste domingo por Jair Bolsonaro, o atual vice-líder nas pesquisas de intenção para a Presidência. Ao comentar a venda da unidade brasileira de sementes de milho da Dow para um fundo de investimento chinês, o ex-militar afirmou que o Brasil está perdendo o controle de sua “segurança alimentar” e que precisa “estabelecer limites legais”. Para ser justo, Bolsonaro não usou o termo “invasão chinesa”, como destacam seus seguidores e parte da imprensa, mas não é de hoje que ele encasqueta com aquele país. O discurso nacionalista, contudo, não é exclusividade dele. Ironicamente, o PT de Luiz Inácio Lula da Silva vai pelo mesmo caminho. E ambos são, no mínimo, simplistas.

No caso petista, a declaração mais recente contra o capital estrangeiro em terras tupiniquins foi dada na sexta-feira (8), por Celso Amorim, ex-chanceler de Lula. Durante a passagem do ex-presidente pelo Rio de Janeiro, Amorim afirmou que “não existe privatização [de estatais], o que existe é uma campanha pela desnacionalização.” E, daí, emendou dizendo que “quando se fala em privatização, você imagina que as empresas estão sendo vendidas para grandes empresários brasileiros, como um Antônio Ermínio de Morais (sic). Isso não acontece. A venda é sempre para estrangeiros e, muitas vezes, as vendas são para são empresas estatais, mas de outros países.”

É verdade que a onda nacionalista não banha apenas nosso paradisíaco litoral. Ela alcança da Europa aos Estados Unidos, passando por parte da Ásia e da África. O fato é que vetar a participação estrangeira no mercado brasileiro pode nos atrasar mais, do que nos desenvolver. O motivo é simples: não há dinheiro suficiente no país para os necessários investimentos que nos façam crescer. De um lado, a taxa de investimento das três esferas de governo (federal, estadual e municipal) atingiu o nível mais baixo desde 1995 – apenas 2% do PIB, segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado. Não é de se admirar, já que as contas públicas andam em frangalhos, diante de dois anos de recessão, queda da arrecadação, aumento dos gastos e péssima qualidade de gestão.

Dureza...

Tampouco as empresas (a lendária iniciativa privada) conseguem suprir nossas carências. No terceiro trimestre, a taxa de investimentos total (governo mais capital privado) correspondeu a 16,1% do PIB, abaixo dos 16,3% do mesmo período do ano passado. É pouco, muito pouco, para um país como o Brasil. Há um consenso, entre os economistas, de que a taxa ideal seria de 25% do PIB. Para chegar nisso, contudo, é preciso dinheiro – algo que não temos. Só há dois lugares em que uma empresa pode conseguir “money”: aqui no Brasil, ou lá fora. Por aqui, a situação é esta: nossa taxa interna de poupança (o quanto conseguimos guardar) foi de constrangedores 15,2% do PIB entre julho e setembro. Novamente, os especialistas recomendam 25%.

Trazer dinheiro “de fora” só é possível de dois modos. O primeiro é, pura e simplesmente, pedir emprestado a bancos ou investidores, como fundos de pensão. O ônus dessa opção é óbvio: a dívida da empresa, ou do governo, e, em quaisquer dos casos, do Brasil, aumentará. O segundo é aceitar que o “dono” do capital venha junto, isto é, que empresas estrangeiras invistam diretamente aqui – seja comprando o controle de companhias nacionais, seja criando as suas do zero. A contrapartida é abrir o mercado e aceitar a competição – a tal “invasão”.

Meu dinheiro, minhas regras

Por isso é que considero simplória a visão nacionalista, tanto de Lula (via Amorim), quanto de Bolsonaro (ele mesmo). O fato é que a independência de um país é diretamente proporcional ao dinheiro que possui para andar sozinho, e, neste quesito, o Brasil é especialista em se humilhar com o pires na mão. Para se ter uma ideia, a odiada China de Bolsonaro ostenta uma taxa de poupança interna de 44% do PIB – uma das mais altas do mundo. Não é à toa, portanto, que os chineses estão “invadindo” o Brasil e (não sejamos egocêntricos) o mundo.

É verdade que muito disso foi determinado por nosso passado de ex-colônia, que nos atirou à condição de coadjuvante das grandes potências após a independência. Mas parte também se deve a aventuras nacionalistas míopes, como a reserva de mercado da telefonia e dos computadores, durante a ditadura e a década de 80, que nos condenou a um atraso tecnológico que ainda não foi superado. Quem quer o bem do país não tenta, simplesmente, fechar as portas aos estrangeiros; tenta usá-los da melhor forma possível.