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Por que o seu maior medo decidirá a eleição de 2018

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Qual é a pior coisa que pode lhe acontecer com Lula? Com Bolsonaro? Com os outros? A resposta a essa pergunta determinará seu voto – e o destino do país

Por que o seu maior medo decidirá a eleição de 2018

Exorcismo: é hora de os brasileiros encararem seus piores demônios (Divulgação/ O Exorcista)

Em 2002, Regina Duarte garantiu seu lugar na galeria do besteirol político, ao estrelar uma peça da campanha do tucano José Serra à presidência. Nela, a atriz afirmava, dramaticamente, que “tinha medo do outro candidato”, numa referência ao petista Luiz Inácio Lula da Silva. Para ela, a eleição de Lula faria o país perder “toda a estabilidade conquistada” e ressuscitaria a “inflação desenfreada” dos tempos pré-Plano Real. O dramalhão não colou e o ex-metalúrgico foi eleito pela primeira vez. Doze anos depois, o PT veiculou outro marco do besteirol. Na corrida pela reeleição, Dilma Rousseff atacou a intenção de Marina Silva de dar autonomia ao Banco Central. Acusando-a de favorecer os bancos, a peça mostrava uma família com cada vez menos comida no prato, à medida que banqueiros caricatos enriqueciam e gargalhavam. Daquela vez, a bobagem colou e Marina sequer foi para o segundo turno. O que há em comum nos dois casos? A habilidade dos candidatos em jogar com seus medos mais profundos, meus amigos. Não se enganem: 2018 será decidido pelos monstros que você mais teme.

Não se trata de uma hipérbole de fim de ano, mas sim de pura teoria dos jogos. Com maior ou menor consciência, marqueteiros e candidatos recorrem a dois princípios que movem qualquer ser humano: a aversão ao risco e a aversão à perda. Parecem a mesma coisa, mas não são. A aversão ao risco significa o quão desconfortável alguém se sente, quando não consegue prever o resultado de algo. Isto porque, para a teoria dos jogos, “risco” não é sinônimo de “perigo”, como no nosso dia a dia. Seu significado é bem preciso: risco é a medida da imprevisibilidade de um resultado. Na teoria dos jogos, quanto mais incerto o desfecho de algo, mais arriscada é a situação. Exemplo óbvio, mas bem didático: se alguém se jogar do 30º andar de um prédio, a chance de que sobreviva é praticamente nula. Logo, para a teoria dos jogos, não há risco algum em se jogar de um prédio, já que o resultado é totalmente previsível – praticamente 100% de chances de a pessoa morrer.

Perdeu, playboy!

Já a aversão à perda expressa o desconforto das pessoas em, como o próprio termo diz, perder algo. Numa elaboração mais arrumadinha, trata-se da indisposição de ver seu status quo ameaçado. Intuitivamente, é mais simples de se compreender do que a aversão ao risco. Afinal, quem gostaria de ser demitido, ver seu salário cortado pela metade ou tomar um fora do(a) namorado(a)? Tirando os masoquistas, provavelmente, não sobrará muita gente. Assim, pense em como você se comportaria em duas situações. Na primeira, alguém propõe a seguinte aposta: num jogo de cara ou coroa, você não ganha nada, se der cara; e ganha R$ 10, se der coroa. Em outra aposta, você ganha R$ 20, se der cara; mas perde R$ 10, se der coroa. Qual das apostas você aceitaria? Se você for como a maioria das pessoas, com certeza, optaria pela primeira, embora o “risco”, isto é, a probabilidade de você ganhar dinheiro (seja R$ 10 ou R$ 20) seja de 50%, e a “esperança matemática” – um critério estatístico para determinar o valor de cada aposta – seja exatamente o mesmo: 5.

Por que a maioria das pessoas escolhe a primeira e não a segunda aposta? Pela aversão à perda. No primeiro caso, o apostador está diante de dois desfechos possíveis: no melhor, ganha R$ 10; no pior, não ganha, mas sobretudo, não perde nada. É o famoso pensamento do “não tenho nada a perder, logo, vamos nessa!”. No segundo, os dois desfechos são a) perder dinheiro; b) ganhar dinheiro. É óbvio que um dos resultados seria bem desconfortável...

Ninguém quer ficar no preju

Mas, o que isso tem a ver com Lula, Jair Bolsonaro, Geraldo Alckmin, Marina Silva e quem mais se candidatar à presidência no ano que vem? E o que isso tem a ver, sobretudo, com você? Simples: sua decisão passará pelos mesmos mecanismos, com mais ou menos consciência. Comecemos por Lula. Seu maior eleitorado está no Norte e Nordeste, bem como na periferia de grandes cidades, onde os programas sociais têm um peso enorme. Quem vota no petista já perdeu (e quer reconquistar) sua renda, seja pelo desemprego, pela inflação ou pela defasagem do valor do Bolsa Família. Outra parte vota nele por medo de perder o que ainda possui (incluindo o Bolsa Família). Para esse público, Lula tem um discurso pronto: não cortará programas sociais, nem benefícios aos mais pobres, resgatará direitos que foram extirpados por Michel Temer na reforma trabalhista e impedirá que a reforma previdenciária retire direitos dos brasileiros.

Mas ele também precisa lidar com a aversão à perda de outra parte da sociedade: o famoso mercado. Há algum tempo, economistas, investidores, banqueiros e analistas perdem o sono com medo do que seria um terceiro governo lulista. Isto porque, seu medo é que o petista radicalize e governe “para as massas”. Não é por acaso que, recentemente, Lula tentou acalmá-los dizendo que não será radical. É seu instinto político atuando para reduzir a aversão à perda desses personagens.

Perdemos a vergonha?

Já os eleitores de Jair Bolsonaro temem perder outras coisas. Primeiro, temem pela sua vida e pelo seu patrimônio, por isso, valorizam tanto a segurança, o combate aos criminosos e o direito de se armarem. Segundo, temem pela perda da “moral e dos bons costumes”. Não é à toa, que se sentem acuados num mundo “governado pela ditadura das minorias”. No plano político e econômico, tudo isso se unifica num mantra: o Brasil só está em crise, porque perdemos a decência e a capacidade de punir os maus – sejam eles criminosos comuns ou corruptos da Lava Jato. Não é por acaso, que o mote de Bolsonaro e seus seguidores passa pelo “Ordem e Progresso” da bandeira. Logo, quem vota nele tem dois medos: perder o restinho de segurança, moral e bons costumes que o país ainda tem; e perder a esperança de resgatá-los, caso outro candidato (Lula, sobretudo) vença.

É claro que Bolsonaro precisa, também, lidar com a aversão à perda de quem não é seu eleitor natural. Boa parte da classe média é liberal, em termos de costumes, embora não assuma isso em público. Afinal, estamos no Brasil, onde o feriado mais importante é o Carnaval, com seu bundalelê, sua pegação, seu “beija muito” e suas eternas campanhas de prevenção de DSTs. Logo, esse público rejeita perder sua liberdade e seus direitos civis. Simplesmente, não quer que alguém lhe diga o que fazer com seu corpo e sua vida privada. É aqui, também, que entram os direitos de gênero e a legalização do aborto, por exemplo. Quantas pessoas gostariam de ver um ex-militar lhes dizer com quem devem transar, como devem se comportar ou o que devem assistir?

Nem lá, nem cá

Bolsonaro também não escapa de lidar com a aversão às perdas do mercado. Depois de se gabar de que não entende nada de economia, desdenhar publicamente dos “especialistas” e sequer saber o que é o tripé macroeconômico que, mal e mal, nos impede de mergulhar no abismo, o ex-capitão corre para apagar a péssima impressão que causa em investidores, economistas e empresários. Esse público é tradicionalmente avesso a aventuras heterodoxas na economia, foge feito o demônio de populistas de qualquer lado e detesta quem ameace seus lucros. Tudo o que Bolsonaro insinuou até agora, com sua errática retórica, ora nacionalista, ora liberal, ora simplesmente mal informada.

Restam os candidatos que tentam conquistar o centro e, teoricamente, o grosso dos eleitores. Não é por acaso que os cientistas políticos afirmam que, no segundo turno, todo discurso tende a se moderar. O motivo é simples: o centro costuma aparecer como o de menor potencial de perdas (efetivas ou imaginadas) para os eleitores, reduzindo sua aversão. A maioria do povo tende a apoiar alguém de centro, por um motivo simples: a maioria não se importa de ganhar pouco ou mesmo nada com sua eleição – desde que não perca o que lhe é fundamental. Quem conseguir convencer os eleitores de que é capaz disso vencerá em 2018.