ECONOMIA

Por que outro Lula seria ruim para o Brasil (parte 1)

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni
Por que outro Lula seria ruim para o Brasil (parte 1)

Há alguns dias, tive a honra de estrear uma coluna sobre política e economia no Storia.me com um artigo sobre o que chamo de “malufismo de esquerda”. Felizmente, o texto não caiu no vácuo e foi rebatido sobriamente pelo jornalista Pedro Zambarda (Por que votarei em Lula e não sou "malufista de esquerda"). Há tempos, não debato com alguém equilibrado. Trata-se de uma bênção! Por isso, vamos ao papo!

Inicialmente, ao contrário do que se pode supor, não sou de direita. Sou um grande desiludido com a esquerda – o que me converteu em um ateu político. Não vejo santos sentados nem à esquerda, nem à direita de Deus Pai, Todo Poderoso... hoje, sigo duas máximas do Millôr Fernandes. A primeira é “desconfie dos heróis que lucram com seus ideais.” A segunda: “Livre pensar é só pensar.” E uma do Saramago: “Se podes olhar, vê; se podes ver, repara.”

Feitas essas ressalvas, vamos ao assunto. Pedro nos apresenta, basicamente, quatro argumentos: a) o PMDB também teve culpa na recessão que vivemos hoje; b) o PT tentou, o quanto pôde, conter a crise; c) nem Lula, nem Dilma foram condenados pela Justiça; d) comparado aos outros nomes que se cogitam para o Planalto, Lula é o melhor. Eis o que posso dizer a respeito desses pontos de vista.

Verdades inconvenientes

É verdade que o PMDB foi coautor da grave crise econômica que nos atazana a vida, mas é preciso lembrar que ele não entrou de penetra nela. O PMDB foi eleito e reeleito na chapa de Dilma Rousseff. Desde os tempos de Lula, uma das queixas comuns de petistas era que o partido do agora “golpista” Temer era muito paparicado pelo governo. Numa orgia político-partidária de fazer inveja a Calígula, os governos Lula e Dilma deitaram-se na alcova de todos os caciques peemedebistas. Alguém, por exemplo, já se esqueceu dos elogios ao hoje condenado Sérgio Cabral? Logo, Lula, Dilma e o PT, em nome da “governabilidade”, justificaram a pornografia política com vernizes de “realpolitik”: se não tem gente honesta, governemos com os desonestos em nome dos mais pobres.

É verdade que o PT tentou segurar, o quanto pôde, a crise econômica. Mas sua primeira tentativa foi baseada num keynesianismo de orelha de livro. Preocupou-se em injetar dinheiro para o consumo (via crédito e programas assistenciais), enquanto fingia estimular os investimentos com o PAC. Como se viu, o PAC era apenas o “Programa de Arrecadação de Caixa 2” do partido e seus aliados de plantão. No fim, tudo o que se viu foi uma população endividada com os carnês de crediário, com a renda corroída pela inflação que Mantega e Dilma toleravam, e premida pelo desemprego que se avistava.

Quando tudo indicava a ruína, Dilma deu uma guinada, cortejou Trabuco (o presidente do Bradesco) para a Fazenda e levou seu subalterno, Joaquim Levy (um diretor do Bradesco). Os petistas encabulados foram forçados a defender, no Congresso, medidas de ajuste fiscal cada vez mais draconianas. Em paralelo, Lula tentava derrubar Levy e emplacar Meirelles (outro banqueiro) para tocar as reformas. Reformas, aliás, defendidas em vídeo pela presidente.

Noves fora...

O terceiro argumento de Pedro é que Lula e Dilma não foram condenados pela Justiça. Trata-se de um argumento formalista. É verdade: só é culpado aquele que o tribunal condena. Mas aí vão duas observações: a) a situação jurídica de Lula é frágil. É questão de tempo para que Moro comece a soltar suas sentenças; b) ainda que seja absolvido, o que Lula dirá de suas relações com a família Odebrecht, com Leo Pinheiro da OAS e demais empreiteiros e membros da elite branca que bate panelas? É eticamente aceitável que um político que se apresenta como a “voz dos mais pobres” grite em público contra os mais ricos, mas aceite seus mimos (como jatinhos emprestados) e sussurre doçuras em seus ouvidos no escurinho do poder?

Por fim, Pedro afirma que, diante das opções até aqui cogitadas, Lula é o melhor nome. É um direito do jornalista de pensar assim. Negar-lhe esse direito é embarcar no pensamento autoritário e maniqueísta que nos empurra ainda mais para o buraco sócio-político-econômico atual. Mas, para mim, não há ninguém – à direita, à esquerda, à frente, atrás, acima, abaixo – digno de meu voto em 2018.