ECONOMIA

Por que outro Lula seria ruim para o Brasil (parte 2)

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni
Por que outro Lula seria ruim para o Brasil (parte 2)

Seja pela possibilidade de Michel Temer cair e detonar uma disputa entre os defensores da eleição direta antecipada e os apoiadores da eleição indireta, seja pela proximidade das eleições de 2018, a liderança de Lula nas pesquisas de intenção de voto divide o Brasil entre os que sentem asco com a ideia e os que voltam a ter esperanças. Não sinto ânsias de vômito com uma eventual (e improvável) vitória de Lula nas urnas, mas acredito que isso seria ruim para o Brasil.

Ontem, tratei de rebater os argumentos do jornalista Pedro Zambarda que, em seu artigo Por que votarei em Lula e não sou "malufista de esquerda", defendeu o petista como a melhor opção para o Planalto. Hoje, gostaria de apresentar as ideias de dois bons livros: Os sentidos do Lulismo, de André Singer, e Do PT das lutas sociais ao PT do poder, de José de Souza Martins. Para quem ainda nãos os conhece, trata-se de intelectuais respeitados e não de rasos panfletários de memes de Facebook. Singer é cientista político e foi porta-voz da Presidência durante o primeiro mandato de Lula. Martins, sociólogo, cresceu no ABC e sempre foi simpático ao PT. Não são, portanto, coxinhas atavicamente tendenciosos. E, ainda assim, não gostaram nada do que viram nos últimos anos.

A ideia central de Singer é que os governos petistas não foram revolucionários, como as cartilhas do partido e seus ideólogos de mesa de bar pregam. Para ele, Lula e Dilma adotaram um “reformismo fraco”, baseado em concessões graduais aos mais pobres, como o maior acesso ao crédito e a valorização do salário mínimo. Com isso, trocaram a antiga oposição entre direita e esquerda pela oposição entre ricos e pobres.

Maniqueísmo de mentirinha

Essa nova oposição entre “churrasco na laje” e “varanda gourmet” foi habilmente manipulada por Lula (e sofrivelmente por Dilma). Em tempos de paz política e crescimento econômico, Lula acenava com a possibilidade de ascensão dos mais pobres à classe média. Foram anos de crédito farto para comprar automóveis novos, televisões enormes e apartamentos cujos preços explodiram. Em vez de combater o capitalismo, como os boinas vermelhas de camiseta do Che Guevara dizem que o PT faz, os governos petistas apenas prometeram alargar o mercado de consumo. Com isso, selaram a paz com as elites político-econômicas, naquilo que Singer chama de “pacto conservador”.

Quando o clima político-econômico azedou, essa mesma oposição construída pelo PT entre ricos e pobres foi conveniente para atacar “as elites brancas”. Tais “elites” foram o Satanás que Lula, Dilma e seus companheiros jogaram a quem protestou contra a deterioração das condições de vida. Afinal, eram os batedores de panela das varandas gourmet que detestavam pobres ascendendo socialmente e, por isso, se opunham ferozmente ao governo popular. É verdade que há cabeças-de-bater-bife que sentiram urticárias em ver o povo, afinal, começar a viver com um pouco mais de decência. Mas, na versão petista, os protestos só eram baseados nisso e não tinham nada a ver com a piora da economia e com a corrupção que se alastrou sob as barbas de Lula (basta ver que muitas das denúncias de corrupção envolvendo peemedebistas remontam à época em que eles eram integrantes dos governos Lula e Dilma).

Quem nunca comeu melado...

Mas por que os petistas não pararam a tempo de evitar o desastre? Aí, entra a visão de José de Souza Martins, desconcertantemente simples: para o sociólogo, Lula, Dilma e companheiros trocaram um projeto de Brasil por um projeto de poder eterno. Deslumbraram-se com as benesses do poder e trocaram a legalidade (isto é, agir conforme a lei) pela legitimidade (agir sob o pretexto de que está atendendo aos clamores do povo). Na autofantasia petista, seus governos representavam a consolidação final das aspirações populares. Ungidos pelas urnas, poderiam fazer o que bem entendessem em nome do resgate de injustiças históricas.

Onde isso foi dar? Eis o que diz Martins: “O país já não tinha um projeto de nação. Mas o PT tinha um projeto de poder. Essas fraturas demarcarão a tortuosa trajetória do partido até os autos do processo judicial e o recinto da Suprema Corte. Houve militantes que julgaram lícito o ilegal em nome do que consideravam legítimo, o poder a ser conquistado e mantido. Maquiavel em versão de província. Enveredaram pelo caminho do que, à luz da lei, é corrupção, supondo que não o seria se em nome da legitimidade da revolução, na conquista da equivocada eternidade do poder.”

Os fatos falam por si.