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Quem é patriota, mesmo, não vota em Bolsonaro

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Verdadeiros patriotas se sentem moralmente comprometidos com todos que formam sua Pátria, independentemente de cor, sexo, credo etc.

Quem é patriota, mesmo, não vota em Bolsonaro

(Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil)

Jair Bolsonaro, deputado federal e quase pré-candidato à Presidência pelo Patriotas (sua filiação oficial ainda não ocorreu), conseguiu de novo. Nesta terça-feira (03), foi condenado em primeira instância por racismo. O caso ocorreu em abril, quando o ex-capitão do Exército afirmou, em discurso na Hebraica, que, em visita a uma comunidade quilombola, constatou que “o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas” e que “nem para procriador ele serve mais.” Não é preciso ser doutor em Letras para constatar que, pelos termos usados, Bolsonaro equiparou afrodescendentes a animais. Por isso, foi condenado a pagar uma indenização de R$ 50 mil, mas ainda cabe recurso. Não é a primeira vez e, ao que tudo indica, não será a última em que o postulante ao Palácio do Planalto fere direitos com sua artilharia verbal. O ex-capitão se vende como um defensor da Pátria. Nada mais falso.

E quem diz isso não é nenhum comunista-petralha-mortadela. Quem o afirma é um dos maiores pensadores do conservadorismo britânico, Lord Acton (1834-1902). Em sua obra Nationality, Essays on Freedom and Power (Nacionalidade, Ensaios sobre a Liberdade e o Poder), Acton faz um contraste entre “nacionalidade” (nationality) e “patriotismo(patriotism). Segundo ele, a primeira é “a nossa conexão com a raça”, que é “meramente físico ou natural”. Já o patriotismo “é a consciência de nossos deveres morais com a comunidade política”. Logo, ser patriota não é essa pataquada de cantar o Hino Nacional em escolas, nem andar com bandeiras, bater selfies com soldados, pregar o fim do Estatuto do Desarmamento, fazer a apologia da tortura e da ditadura militar, praguejar contra LGBTs e dizer que algumas mulheres não merecem sequer serem estupradas. Ser patriota, segundo Acton, é contribuir para o bem-estar geral de nossa pátria.

A má notícia para Bolsonaro, que trata quilombolas como gado, é que a pátria brasileira é composta por 45,1% de pardos e 8,9% de pretos. Apenas 45,2% dos patriotas são brancos. Se o deputado federal quer, mesmo, defender sua pátria, deve-se lembrar de que ela é multirracial e a paciência com comentários racistas se esgotou faz tempo. Afinal, “nossos deveres morais” nos obrigam a zelar por todos os patriotas, independentemente de cor, sexo, idade, credo etc. Imaginar que patriotas são apenas os homens brancos é, no mínimo, ignorância. E, no máximo, racismo. Está aí o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro para lembrá-lo, e a juíza federal Frana Elizabeth Mendes para condená-lo.

Como é possível amar apenas parte da Pátria? Só mesmo, um patriota de meia-tigela, como Bolsonaro, conseguiria tal coisa.