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Quem está disposto a morrer por Lula?

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Só há um tipo de pessoa capaz de se tornar mártir do PT – aquele que não quer sê-lo

Quem está disposto a morrer por Lula?

Levanta a mão aí, quem quer morrer! (Foto: Ricardo Stuckert/Ag. Fotos Públicas)

Nesta terça-feira (16), o site Poder360, especializado em política, publicou declarações preocupantes da senadora Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT. Segundo ela, caso a segunda instância confirme, daqui a oito dias, a sentença de prisão proferida por Sérgio Moro contra Luiz Inácio Lula da Silva, os petistas vão “jogar pesado”. Nas palavras de Gleisi: “Para prender o Lula, vai ter que prender muita gente, mas, mais do que isso, vai ter que matar gente. Aí, vai ter que matar.” Pode ser mera bravata, a fim de inflamar a militância, mas, pela via das dúvidas, o clima hostil que se desenha para o dia 24 de janeiro preocupa. É bem provável que ocorram confrontos entre manifestantes a favor e contra Lula, com intervenção da polícia e imagens de quebradeira, bombas de gás etc. Para o bem ou para o mal, faz parte do jogo. Mas, sinceramente, alguém ainda está disposto a morrer por Lula? E, se sim, quem seriam esses mártires?

É verdade que Lula lidera as pesquisas para a eleição de outubro, com cerca de 30% das intenções de voto. Seu eleitorado, contudo, concentra-se nas regiões Norte e Nordeste, a mais beneficiada, durante os governos petistas, por programas sociais como o Bolsa Família. É verdade, também, que, apesar de destroçado pelos escândalos de corrupção iniciados com o mensalão e chegando ao ápice com a Lava Jato, o PT ainda mantém fortes alianças com movimentos de massa estratégicos, como centrais sindicais, o movimento dos sem-terra e seu irmão mais novo, o movimento dos sem-teto. Em comum, essas organizações estão acostumadas a duras manifestações de rua e já se perdeu a conta de quantas vezes enfrentaram a polícia (às vezes com razão; às vezes sem).

Há kamikazes petistas?

Mas só existem dois tipos de mártires. O primeiro são os voluntários, que caminham para a morte resolutamente. Para complicar, há dois tipos de voluntários: os profundamente desiludidos, e os profundamente esperançosos. Para aqueles, simplesmente não vale a pena viver num mundo em que seus valores e ideais são repreendidos e não se enxerga nenhuma possibilidade de que possam moldar a sociedade algum dia. São os mártires da negação, do desgosto, de um último e extremado ato de independência frente às amarras do mundo – é preferível morrer em pé, a passar a vida de joelhos; eis o seu princípio. Já os esperançosos são os que acreditam que lutam por uma causa nobre, que supera inclusive o valor de sua própria vida. São os que dizem “esta é uma boa causa para se morrer.” Sacrificam-se, na expectativa de que seu sangue fertilize as sementes de um novo amanhã.

Até onde se enxerga, esses são os discursos vendidos pelo PT acerca da eventual prisão de Lula. Sua condenação, por um lado, representaria o mergulho do Brasil nas águas escuras do autoritarismo; por outro, seriam necessários grandes sacrifícios para manter vivo o sonho de um país mais justo e inclusivo. É para os desesperançosos, que o primeiro tipo de discurso se dirige. É para os sonhadores, que o PT propaga o segundo tipo. Morra protestando de desgosto, ou morra lutando por um ideal, mas morra... entregue sua vida ao partido. É claro que tem gente que compra essa conversa de corpo e alma, e é por isso que há motivos para se preocupar com eventuais confrontos na próxima semana em Porto Alegre.

Show must go on

Mas, infelizmente, o tipo mais comum de mártir não é o voluntarioso (seja ele um desiludido ou um idealista). O tipo mais comum de mártir é o involuntário, aquele que morre por acaso, apanhado no fogo cruzado entre provocadores e a repressão policial. Ninguém lhe prometeu um lugar ao lado de Deus, um harém de virgens presenteado por Alá, uma ode, uma estátua de bronze na sede do partido. Ninguém, a não ser seus amigos e familiares, chorará sinceramente por eles. É muito pouco provável que alguém esteja, deliberadamente, disposto a morrer por Lula, ou porque acredita que, sem ele, o mundo acabará; ou porque crê que seu sonho de um Brasil mais justo deve se manter vivo.

Após 13 anos no poder, o PT revelou sua verdadeira face: não hesitou em se aliar com o que havia de mais repugnante na política, como os novos coronéis do Norte e do Nordeste, o grande capital, os grandes bancos, as empreiteiras corruptas e corruptoras. Segundo André Singer, porta-voz de Lula no primeiro mandato e cientista político, o PT optou por um pacto conservador com as elites dominantes, em troca de melhorias graduais na vida da população, por meio do fomento ao crédito e do reajuste real do salário mínimo. Pouco ou nada mexeu nos privilégios da elite que, agora, adora demonizar. Basta lembrar que, durante os anos Lula e Dilma, os bancos bateram sucessivos recordes de lucro, setores econômicos se concentraram a ponto de se transformarem em oligopólios, como o de carnes, sob a desculpa de criar campeãs nacionais, e o desequilíbrio fiscal cobra seu preço até hoje.

Assim, se alguém tiver que morrer para Lula ser preso, conforme a forte declaração de Gleisi, os maiores candidatos serão os que entraram de gaiato na manifestação. Tudo o que quereriam seria voltar vivos para a casa. Tudo o que conseguiriam, porém, seria se transformar involuntariamente em garotos-propaganda do PT. E nem estariam vivos para saber. Mas quem se importará, desde que as cenas sejam fortes, o sangue jorre bastante, num vivo “vermelho-PT”, e Lula saia como vítima?