ECONOMIA

Quem será o maior pizzaiolo de Brasília?

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni
Quem será o maior pizzaiolo de Brasília?

Se há uma unanimidade no Planalto Central, é de que o Brasil vive uma “crise de liderança”. Como substantivos abstratos são assim chamados justamente porque cada um os interpreta como bem quiser, o ponto é: o que vossas excelências entendem por “liderança”? Esqueçam a balela patriotesca de que os parlamentares procuram alguém com força para implantar reformas. Na realidade, eles seguirão aquele que se mostrar mais capaz de lhes manter fora do alcance da Lava Jato e das delações da JBS.

Há motivos muito concretos para isso. Primeiro: há 84 deputados e senadores investigados pela Lava Jato. Os nomes constam das duas listas remetidas pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao STF em março de 2015 e março de 2016. Segundo: os donos da JBS confessaram ter distribuído dinheiro para quase 200 congressistas, totalizando R$ 107 milhões. A maior parte, segundo os Batistas, era propina, mesmo quando o repasse foi registrado como doação oficial. Ainda que se desconte a repetição de nomes, é muita vossa excelência tendo que se explicar à Justiça e aos eleitores.

Na visão dos nobres parlamentares, só duas coisas podem lhes garantir alívio: a impunidade ou a imunidade. Por ora, triste e compreensivelmente, optam pela primeira, já que a imunidade depende de se reelegerem e, para isso, precisam convencer o eleitorado de que seu único pecado foi derramar água benta na missa.

Quem põe a pizza no fogo?

O caminho para a impunidade tem um roteiro claro. Passa por amordaçar a Lava Jato; desqualificar a força-tarefa do Ministério Público, da Polícia Federal e da Justiça; assegurar-se de que alguns tribunais sustentarão a tese de que delação não é prova; e, se possível, aprovar algumas leis que impeçam futuras ameaças a organizações criminosas de qualquer matiz ideológico.

O problema é quem seria capaz de fazer tudo isso? Michel Temer ainda tem dois trunfos: segue no Palácio do Planalto e emplacou alguém de sua confiança para suceder Janot. Sua baixíssima popularidade, contudo, espanta políticos de seu entorno como vampiros que fogem da cruz. Com isso, comprar o apoio do Congresso em troca da promessa de assar a pizza sairá caro – com o adendo de que o governo está falido e, portanto, o dinheiro para emendas parlamentares virá a conta-gotas.

Rodrigo Maia, o claudicante presidente da Câmara, também não parece à altura da missão. Primeiro, porque reluta em sentar na cadeira de Temer. Segundo, porque sabe que está tão enrolado na Lava Jato quanto ele. Além disso, há dúvidas sobre a necessidade de Maia deixar o cargo de presidente da Câmara e até seu mandato de deputado, se quiser concorrer à vaga. Para alguém na mira da Polícia Federal, é bastante arriscado trocar a segurança do foro privilegiado pela aventura de ser presidente por alguns meses. E se ele não se elegesse? Estaria nas mãos de Sérgio Moro no dia seguinte?

Aécio Neves, torpedeado pela delação da JBS, ainda não convence nem seu próprio partido. Embora Marco Aurélio Mello tenha lhe devolvido o mandato de senador e lhe rasgado elogios, os tucanos aguardam a manifestação do restante da corte, na volta do recesso. Vai que os demais juízes decidem que seu colega se empolgou nas mesuras ao político mineiro...

Com tudo isso, a chamada “crise de liderança” atormenta Brasília. O Congresso tem fome de esperança e ainda não encontrou um pizzaiolo à altura para saciá-la. Alguém se candidata?