ECONOMIA

Resumo do (des)governo Temer: 21 dias sem ministro do Trabalho...

Márcio Juliboni
Yazar
Márcio Juliboni

Com mais 13 ministros para substituir até abril, Temer ficará paralisado até garantir na Justiça a posse de seus novos assessores – o que pode levar meses

Resumo do (des)governo Temer: 21 dias sem ministro do Trabalho...

Orgulho do papai: Jefferson impôs filha a Temer (Foto: Antonio Augusto/ Câmara dos Deputados)

Nesta quarta-feira (17), completam-se 21 dias que Ronaldo Nogueira se demitiu do Ministério do Trabalho para concorrer à reeleição à Câmara dos Deputados pelo PTB. E amanhã, completar-se-ão 15 dias, desde que Cristiane Brasil foi indicada para seu lugar por obra e graça de seu pai, o ex-mensaleiro e ex-presidiário Roberto Jefferson, que agora comanda o PTB. Como se sabe, coube ao próprio o anúncio, entre orgulhosas lágrimas, de que o presidente Michel Temer havia concordado com o nome da filha para o cargo. Afirmou que a indicação significava um “resgate” da família, após tudo o que passou ao denunciar o esquema de compra de votos na Câmara, batizado de mensalão, no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Desde então, o governo trava uma batalha jurídica para garantir a posse de Cristiane, embargada por um juiz de primeira instância. A decisão foi mantida, há alguns dias, por desembargadores do Tribunal Regional Federal da Segunda Região do Rio de Janeiro. Está claro que a briga não terminará tão cedo. Está claro, também, que esta é apenas uma prévia do que Temer enfrentará neste ano.

Neste sentido, é de arrepiar os cabelos lembrar-se que mais 13 ministros devem deixar suas pastas até abril, a fim de concorrer a cargos no Executivo e no Legislativo em outubro. Em fim de mandato, enfraquecido pela impopularidade recorde, pela falta de um programa de governo aprovado pelas urnas, por denúncias de corrupção que atingem seus colaboradores mais próximos e a ele próprio, Temer não tem nada a oferecer à base aliada, em troca de apoio a seus projetos no Congresso, além de cargos e dinheiro. E é precisamente esta barganha política, vergonhosamente fisiológica, que abrirá caminho para que outras “Cristianes Brasil” cheguem ao ministério. “Cheguem”, lógico, é um modo de falar, já que nomes igualmente problemáticos, com uma ficha tão controversa, quanto a da filha de Roberto Jefferson, com certeza serão impostos goela abaixo a Temer.

Ao Deus dará...

Acuado pela falta de poder, não restará nada ao presidente, a não ser engoli-los. O problema, como é fácil prever, é que cada nomeação terá o potencial de se transformar em um novo calvário nos tribunais, com idas-e-vindas de liminares e julgamentos de mérito. Acrescente-se o fato de que as instâncias superiores, como o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o Supremo Tribunal Federal (STF), não aparentam pressa alguma para resolver tais pendengas. Para sermos totalmente honestos, é preciso reconhecer que o próprio governo alimenta a demora, porque não deseja queimar cartuchos na briga pela posse de Cristiane, na esperança de que seu pai mude de ideia e indique outra pessoa para o cargo. Da mesma forma, deve-se esperar que Temer aceite os nomes de figuras controversas para outras pastas, mas entregue a Deus a sua efetivação.

Isso significa que o presidente pode levar meses para repor todos os ministros demissionários. Sem dúvida, será uma soma de desgastes: o da briga nos tribunais, o de aceitar nomes pouco republicanos para os cargos e, sobretudo, o de paralisar o governo até uma solução. O destino de mais de 200 milhões de brasileiros, contudo, não pode ser suspenso pela fraqueza de um presidente incapaz de nomear um ministério minimamente competente. Este não será, de longe, um ano fácil. Enfrentaremos, talvez, a mais complicada eleição presidencial desde a redemocratização; corremos o risco de ver a incipiente retomada da economia ir para o ralo, diante do rombo fiscal e da desconfiança de empresários e investidores; e discursos populistas e autoritários nos assediam à esquerda e à direita.

É muita coisa, para quem já viveu dois anos da pior recessão da nossa história, engrossa o contingente de 12 milhões de desempregados e olha para os próximos 348 dias restantes de 2018 sem saber o que acontecerá com sua vida. Mas, infelizmente, o único “Brasil” que preocupa Temer, hoje, é o que vai no sobrenome da filha de Roberto Jefferson – um “Brasil” que representa tudo o que os cidadãos não querem.