LAVA JATO

Rio de Janeiro: o (péssimo) exemplo daquilo que o Brasil virou

Márcio Juliboni
Autor
Márcio Juliboni

Deputados estaduais devem libertar Jorge Picciani. Será a comprovação de que um povo omisso jamais será ouvido

Rio de Janeiro: o (péssimo) exemplo daquilo que o Brasil virou

(Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil)

É praticamente garantido que a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro anulará a prisão preventiva de seu presidente, Jorge Picciani (PMDB). Picciani foi detido pela Polícia Federal, durante a Operação Cadeia Velha, um desdobramento da Lava Jato que apura um esquema de corrupção envolvendo políticos e empresários do setor de transporte urbano. Nesta quinta-feira (16), os cinco desembargadores da TRF-2 foram unânimes na sentença de prisão preventiva, mas já reconheceram que Picciani deve escapar. O motivo é que, após o STF determinar que o Legislativo deve validar sentenças judiciais que impeçam parlamentares de exercerem seus mandatos, foi aberta a porteira para o corporativismo político e a impunidade.

Durante o julgamento de Picciani pelo TRF-2, o relator do caso, Abel Gomes, deu o tom geral da inutilidade da decisão. "Com a prisão, [os três deputados] estarão automaticamente afastados [de seus mandatos]. O que a Alerj fará com essa decisão é um problema que nós não criamos", afirmou, segundo a Folha de S.Paulo. Se os deputados fluminenses confirmarem as piores expectativas de quem acompanha o caso, Picciani será o primeiro político com mandato, fora da esfera federal, a se beneficiar da nova jurisprudência do STF.

A esdrúxula honra, em Brasília, coube ao tucano Aécio Neves. Em setembro, a primeira turma do Supremo o afastou do Senado e determinou seu recolhimento noturno. Foi o bastante para que seus colegas, temendo serem os próximos, acusassem a corte de se meter onde não devia e propagar uma crise institucional – aquela em que um poder tenta interferir em outro. O plenário do STF determinou, depois, que decisões do tipo só serão válidas, após votação do Legislativo, para a alegria dos políticos em geral.

Brasil em miniatura

Nos próximos dias, portanto, o Rio de Janeiro será uma miniatura do novo Brasil. De um lado, a Polícia Federal e a Justiça apresentarão os indícios para condenar Picciani e outros dois deputados estaduais – Paulo Melo e Edson Albertassi, ambos do PMDB. De outro, a Assembleia Legislativa se articulará para livrá-los de qualquer sentença e garantir que retornem aos seus cargos como se não houvesse nada. Tudo isso, claro, em meio a berros indignados contra a “Justiça arbitrária” que tenta “atacar a honra” de tão nobres colegas. No meio, estará um povo omisso, incapaz de protestar contra a impunidade que samba na sua cara, como no desfile das campeãs da Praça da Apoteose.

Os “cidadãos de bem” e os “mortadelas” reclamarão enfaticamente pelas redes sociais, mas abaixarão a cabeça e aceitarão tudo no mundo real, enquanto sofrem com a implosão do governo, a violência digna de Oriente Médio, a precária rede de saúde, o atraso nos salários de funcionários públicos e pensionistas, a péssima educação. Será a comprovação de que um povo omisso jamais será ouvido.