ECONOMIA

Rombo nas contas públicas: uma lição sobre acreditar apenas no que queremos

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Que governo não se enxerga como o melhor da história? Bobo, mesmo, é quem acredita

Rombo nas contas públicas: uma lição sobre acreditar apenas no que queremos

Nesta semana, o governo jogou a toalha e reconheceu que o buraco nas contas públicas deve ser maior que o previsto neste ano. Por isso, revisou a meta fiscal de um rombo de R$ 139 bilhões para outro de R$ 159 bilhões. Na conversa com jornalistas, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, deu as desculpas clássicas: a arrecadação está menor que a esperada, e a reação da economia ainda é fraca. Resumindo, as coisas não saíram como o esperado. Mas a pergunta que se deve fazer é justamente esta: o governo e os 5% de brasileiros que o apoiam foram traídos por uma realidade caprichosa, ou esperaram algo que nunca aconteceria? Em outras palavras: eles acreditaram no que quiseram, ignorando todas as evidências em contrário? Para os cientistas cognitivos e psicólogos comportamentais, a resposta é simples: sim, eles se autoenganaram.

Uma parte considerável dos economistas insiste que a economia é uma ciência exata e se desdobra em criar modelos matemáticos para descrever e prever todos os fenômenos. É claro que isso nos ajuda a clarear nossas ideias, quando analisamos alguns cenários. Mas o risco de levar essa visão às últimas consequências é ignorarmos o básico: o elemento fundamental da economia, o ser humano, não pode ser descrito por uma equação. Há pencas de estudos de psicólogos comportamentais e cientistas cognitivos mostrando o óbvio: a maioria das pessoas simplesmente ignora qualquer coisa que contrarie suas opiniões, crenças e experiências pregressas. É o que os estudiosos chamam de viés de reforço positivo. Expostos a diversas informações, os indivíduos rejeitam deliberadamente aquelas que contrariam sua visão de mundo e absorvem apenas as que a reforçam – sejam elas corretas ou não.

Temer, o bonzão

Agora, imagine um presidente recém-empossado, após um turbulento e polêmico processo de impeachment. Sem o apoio das urnas, seu único recurso é se vender como o salvador da economia. É ser aquele que, sem ligar para a popularidade e sem pretensões de se reeleger, assumirá a patriótica missão de arrumar a casa para o seu sucessor. O que Michel Temer poderia fazer, se não dizer que sabe onde fica o pote de ouro no fim do arco-íris?

Mas o ponto central não é o que ele diz racionalmente, assessorado por um bando de marqueteiros, ministros e aspones em geral. Afinal, tudo isso não passa de discurso ensaiado, jogo de cena. O que precisa ser visto com cuidado é o que Temer e seus ministros colocam no papel, e quanto de voluntarismo e subjetividade existe nessas estimativas. É muito provável que, intimamente, nem ele, nem Meirelles, nem Dyogo Oliveira, do Planejamento, ou qualquer outro membro do governo acreditem que as projeções econômicas divulgadas à população sejam mentiras deslavadas (ok, talvez algumas...).

Realidade, essa coisa irritante

Vejam, por exemplo, o parâmetro mais básico para qualquer governo estimar sua arrecadação de impostos: a projeção de crescimento do PIB. Em julho do ano passado, quando Meirelles e Oliveira divulgaram a primeira meta fiscal para 2017, assumiram que a arrecadação seria puxada por uma alta de 1,2% do PIB neste ano. Seria o suficiente para baixar o rombo fiscal dos R$ 170 bilhões previstos em 2016 para R$ 139 bilhões. Seria ruim, mas marcaria duas vitórias: retomar o crescimento e reverter a expansão do déficit. Nesta semana, porém, ao elevar a expectativa de déficit para R$ 159 bilhões, Meirelles reforçou que a nova projeção de alta do PIB é de apenas 0,5%. Já para o ano que vem, o buraco subiu de R$ 129 bilhões também para R$ 159 bilhões, e a expansão estimada para a economia baixou de 2,5% para 2%.

Alguém mais afobado poderia dizer que revisar estimativas faz parte da vida: ninguém tem bola de cristal. Sim, é verdade. Mas é justamente por isso que devemos perguntar, sempre, quais são as premissas sobre as quais as estimativas públicas são feitas. Ao que tudo indica, a persistente revisão (para pior) dos números só mostra que há um excesso de otimismo em Brasília que vai além do mero discurso marqueteiro de inspirar confiança nos brasileiros.

Já quando as primeiras estimativas foram divulgadas, no início do governo Temer, economistas e brasileiros em geral dividiram-se entre quem achava que eram metas razoáveis e que tudo melhoraria a partir de então, e quem afirmava que o novo presidente estava dourando a pílula e vendendo uma recuperação impossível. Os primeiros sustentavam que a crise brasileira era, sobretudo, de credibilidade: Dilma Rousseff não inspirava confiança e nenhum empresário ou financista, em sã consciência, iria investir enquanto ela estivesse no poder. Adotaram o bordão, um tanto malicioso por recauchutar um slogan da época de Lula, e pregaram "Deixa o Temer trabalhar". Passados tantos meses e tantas revisões, 52% da população já diz que Temer consegue ser pior que sua antecessora.

Cegueira voluntária

Trata-se de um caso clássico de predisposição inconsciente de ignorar o que contraria suas crenças. Quem garantia, e ainda garante, que os investimentos estrangeiros voltariam magicamente, apenas pela troca de nomes no Planalto? Quem garantia, e ainda garante, que a economia reagiria apenas porque os empresários tirariam seus projetos da gaveta? Quem imaginava que o núcleo do governo Temer escaparia ileso da Lava Jato? Que Temer teria mais condições de lidar com um Congresso atavicamente fisiologista, domando-o apenas com o poder da palavra e do carisma (inexistente)?

Afinal, que governo não se enxerga como o melhor da história? Bobo, mesmo, é quem acredita. O maior problema de ignorar a realidade é que ela não nos ignora de volta. Os brasileiros pagam o preço de sua afobação e de sua cegueira deliberada. Mas até isso, a ciência explica!