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Se nazismo é socialista, Bolsonaro é de esquerda

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Filiado a um partido socialista, defensor de greve nas Forças Armadas e julgado na Corte Militar por exigir aumento salarial... comuna, só pode ser comuna!

Se nazismo é socialista, Bolsonaro é de esquerda

(Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil)

A bizarra insistência com que alguns grupos pregam, nas redes sociais, que o nazismo é “de esquerda” ultrapassa qualquer limite da honestidade intelectual necessária para um debate realmente sério sobre os profundos problemas do Brasil. Eu poderia escrever agora um textão comparando um com outro, recorrer a pensadores e cientistas políticos etc, mas prefiro outro caminho. Seguir, passo a passo, o raciocínio desses cidadãos de bem para provar que, pela sua lógica, Jair Bolsonaro é, pasmem, de esquerda!

Duvida? Vamos lá!

Argumento 1 (o mais tosco): o nazismo é de esquerda, porque tem “socialismo” no nome. Ora, ora, ora... Jair Bolsonaro é um grande esquerdista! Veja: embora diga que trocará de partido o mais rápido possível, ele é formalmente filiado ao Partido Social Cristão (PSC). Só poderá assinar a ficha de filiação com o PEN (se assinar, pois impôs condições que a direção da legenda reluta em cumprir) na janela de troca partidária para que não perca o mandato. Logo, desde o ano passado, ele milita num partido de esquerda. Por quê? Ora! Se tem “social” no nome é socialista. “Ah, mas ele está de saída.” Puxa, se o deputado é coerente com seus ideais, não deveria nem ter se filiado ao partido. Se filiou? É porque gosta de “social”. Coisa de esquerdista.

Argumento 2: assim como o nazismo, o socialismo defende a ditadura. Logo, o nazismo é de esquerda. Mais um ponto para o Bolsonaro esquerdista! Além de homenagear o coronel Ustra em seu voto pelo impeachment de Dilma Rousseff (um notório torturador), acrescentou, dias depois, que o erro do regime foi torturar, e não matar, os adversários. Coisa de socialista que defende a aniquilação do adversário por uma ditadura.

Argumento 3: só esquerdistas defendem greve; quem é de direita trabalha e prospera sozinho. Bolsonaro é esquerdíssimo nisso. Na edição de Veja de 3 de setembro de 1986, o então capitão de artilharia do 8º Grupo de Artilharia de Campanha e paraquedista escreveu um artigo que causou fúria na hierarquia militar. O motivo? Reclamava da elevada inflação, que corroía o poder aquisitivo do soldo das Forças Armadas, afirmava com todas as letras que o salário era baixo e não se podia viver com ele, apoiava cadetes expulsos da corporação por se rebelarem (num nítido desprezo pela hierarquia, própria de comunas), e ainda dizia que, ao contrário dos demais funcionários públicos, não havia como se defender, porque greves eram proibidas no Exército. Leia, caro incrédulo:

“Agora, na Nova República, novamente sofremos uma grande perda salarial: a maioria dos trabalhadores, através de lutas sindicais que nos são expressamente proibidas, gozava de adiantamentos, trimestralidade, bônus e outros ganhos que foram incorporados aos salários. Como não tínhamos esse privilégio, perdemos novamente o equivalente a três meses de inflação na época em que ela corroía consideravelmente o poder aquisitivo da população.”

Se nazismo é socialista, Bolsonaro é de esquerda

(Reprodução/Veja)

O quê? Quem fala de perda salarial é petralha. Quem menciona “trabalhadores” é comunista. Lutas sindicais... ainda por cima, reclamando que não tem direito a elas... é um subversivo! Inflação comendo salário? “Chola mais, esquerda, chola”, como dizem os pseudointelectuais de Facebook. Se preocupar que o aumento de preços estava maltratando o bolso da população? Que é isso? População? Quem se preocupa com o povo é comuna.

Até a boina que ele usava na foto da Veja era vermelha. Coisa de bolivariano, cubano, castrista. Mentira? Tanto é verdade, que os superiores de Bolsonaro o levaram à Corte Militar por isso. Censuraram publicamente as declarações. Consideraram-no insubordinado. Agitador. Enfim, coisa de quem não tem o que fazer. Se tivesse, iria trabalhar. Quer saber? Esse Bolsonaro “chola muito”. É uma melancia! Verde por fora e vermelho por dentro.