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Seguir Lula até o fim é suicídio (e até os petistas sabem disso)

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O projeto de um Brasil mais justo e inclusivo não pode ficar a reboque de um nome ou um partido. Aprendemos a lição a duras penas. Essa luta deve ser maior que Lula e o PT

Seguir Lula até o fim é suicídio (e até os petistas sabem disso)

Prioridades: garantir a sobrevivência de Lula ou o futuro do Brasil? (Foto: Ricardo Stuckert)

Estas primeiras horas após a condenação de Luiz Inácio Lula da Silva pela segunda instância estão seguindo, rigorosamente, o roteiro elaborado pelo PT. Em um ato na manhã desta quinta-feira (25), a cúpula do partido lançou a pré-candidatura de Lula à Presidência. Mais previsível que trem-bala japonês, a manifestação contou com todo o repertório de argumentos já elencados pelos petistas: da falta de provas ao suposto conchavo dos desembargadores gaúchos; da perseguição política à fraude de uma eleição sem Lula; do aprofundamento do “golpe” iniciado com o impeachment de Dilma Rousseff à desobediência civil e ao recrudescimento das manifestações de rua. Mas, acima de tudo, houve a defesa inabalável da candidatura de Lula até às últimas consequências. Tudo isso é natural, previsível. Faz parte do jogo. O problema básico, contudo, é que até os petistas sabem que seguir Lula até o fim é um suicídio político. Mais do que nunca, a esquerda em geral, e o PT em particular, deve se perguntar com sinceridade se vale a pena se sacrificar pelo ex-presidente.

A resposta mais simples é: não; não vale. Há muito mais em jogo, do que a defesa incondicional de Lula. Comecemos pelos aspectos mais genéricos. Como já escrevi algumas vezes aqui no Storia, a ruína moral e criminal do PT não diz respeito apenas aos seus filiados. Sendo o maior partido da esquerda brasileira, sua derrocada contamina todo o campo progressista. Independentemente do partido ou projeto político que defenda, qualquer esquerdista agora é taxado de qualquer nome impublicável. A indignação (justa ou injusta) da sociedade com as lambanças do PT generalizou-se para todo o espectro da esquerda. É claro que isso ocorreu por obra e (des)graça de sites e políticos de direita que, oportunisticamente, descaradamente, sem corar diante do seu mau-caratismo, aproveitaram a situação para enfiar toda a esquerda no mesmo saco petista e condenar, no atacado, os “esquerdopatas”. Em suma: Lula e o PT queimaram o filme da esquerda.

E quem elegerá os outros petistas?

Mas há questões muito mais práticas – e são essas que pesarão até outubro. Comecemos pelas eleições legislativas. Muitos parlamentares do PT estão enrolados na Lava Jato e temem, simplesmente, perder o mandato e, portanto, a proteção do foro privilegiado. Apoiar Lula e aparecer num santinho com ele pode ser uma sentença de morte política. Pior, seguida de uma sentença criminal. Vincular-se a Lula, na campanha, é uma estratégia arriscadíssima. Pode ser um golaço, capitalizando o voto dos 30% da população que formam, historicamente, a base eleitoral do PT no país. Por outro lado, pode selar o ostracismo político de qualquer candidato.

A própria direção do PT teme que não consiga manter o tamanho da bancada na Câmara, nem nas assembleias legislativas estaduais, por um motivo desconcertante: há uma debandada de filiados para outros partidos, a fim de se desvincular com antecedência da pecha de petista e tenham mais chances de serem eleitos ou reeleitos. Com isso, as projeções de sua cúpula indicam que o partido sequer conseguirá lançar o mesmo número de candidatos da última eleição. Não se trata, apenas, de amor à defesa dos mais pobres e desvalidos. Encolher na Câmara dos Deputados significa perder parte do dinheiro proveniente do fundo partidário e tempo de TV. Que partido quer isso? Mesmo os “anticapitalistas”??

Juntinho com o inimigo

No que se refere às eleições majoritárias (aquelas para governadores, senadores e presidente), o cenário é ainda mais complicado. Tudo gira em torno de tempo de TV. Segundo maior partido da Câmara, o PT conta com um bom ponto de partida, mas todo minuto adicional conta. E, como se sabe, isso depende de alianças com outras legendas. Depois de muito tempo, os petistas encontram-se na desconfortável situação de não serem mais unanimidade na esquerda. Apesar de manifestações de apoio públicas, aliados históricos já buscam caminhos próprios, como o PCdoB, o PSOL e o PSB. Ironicamente, resta aos petistas compor com... os “golpistas”!!! Já estão praticamente seladas as alianças com o golpista-mor MDB, de Michel Temer, no Paraná e em Minas Gerais. É claro que o malabarismo verbal está aí: o MDB paranaense e mineiro não é o MDB golpista... Pergunta básica: por que, então, esses emedebistas ainda estão no partido??

Por via das dúvidas, o fato é que parte da esquerda está apenas protocolarmente alinhada a Lula. Dão tapinhas nas costas de solidariedade, fazem cara de “estou contigo”, mas já o abandonaram. Melhor. A esquerda e o projeto de um Brasil mais justo e inclusivo não podem ficar a reboque de um nome ou um partido. Aprendemos a lição a duras penas. Essa luta é maior que Lula e o PT. Depois da esquerda revolucionária, da esquerda festiva, da esquerda caviar, tudo o que não precisamos é de uma esquerda suicida.