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Sobrará algo para a esquerda em 2018, se ela não se unir já?

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Apostar numa frente única de esquerda apenas no segundo turno da eleição presidencial pode significar... nem chegar lá

Sobrará algo para a esquerda em 2018, se ela não se unir já?

Na guerra da foice contra o martelo, ninguém vence (Foto: Yevgeny Khaldei/Arquivos/Time)

Os cinco principais partidos de esquerda do Brasil, PT, PDT, PSB, PCdoB e PSOL, começaram a negociar um acordo para o segundo turno da eleição presidencial de 2018. O objetivo, neste primeiro momento, é encontrar pontos em comum para um programa mínimo da esquerda no ano que vem. Por ora, segundo reportagem do Estadão deste sábado (25), ninguém fala de lançar uma frente com candidato único já no primeiro turno. No atual cenário político, e dadas as perspectivas de crescimento da direita nos próximos meses, este talvez seja um tremendo erro estratégico.

É inegável que o Brasil e o mundo vivem uma onda conservadora como há muito não se via. Por aqui, sua expressão mais clara é a pré-candidatura do deputado federal Jair Bolsonaro, que se estabilizou em segundo lugar nas pesquisas de intenção de votos. Mas há outros movimentos, como o Partido Novo, que lançou João Amoêdo, e o MBL, de Kim Kataguiri, que não se tornou uma legenda, mas pretende lançar candidatos por meio daquelas com quem se identifica, como o DEM. O próprio Kataguiri, aliás, é cotado para disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados.

Com a eleição supostamente polarizada entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, a maior parte dos analistas e políticos está preocupada em encontrar um candidato de centro que se ofereça como terceira via e emplaque no Planalto. A especulação mais recente é a entrada do apresentador e garoto-propaganda global Luciano Huck na briga. As opções mais convencionais estão no PSDB, mas nem o governador Geraldo Alckmin, nem sua cria, o prefeito paulistano João Doria, conseguem decolar.

Foice contra martelo

Neste sentido, o pressuposto básico da esquerda, ao rejeitar uma candidatura única já no primeiro turno, é que a polarização com Bolsonaro necessariamente levará um esquerdista para o segundo turno. Uma vez lá, essa pessoa agregaria todos os demais partidos desse campo ideológico para enfrentar o ex-militar. Nomes não faltam: do próprio Lula a Ciro Gomes (PDT), passando por Guilherme Boulos (PSOL) e outros. O grande problema, porém, é que esta estratégia pode levar a uma luta fraticida entre eles para convencer o eleitor de quem é, afinal, o representante mais legítimo da esquerda, enquanto a candidatura de Bolsonaro se consolida e um nome de centro atrai os moderados. O resultado é óbvio: a esquerda ficaria fora do segundo turno, como se viu, por exemplo, nas últimas eleições presidenciais da França.

Mas, além do vacilo estratégico, muita coisa dificulta a união das esquerdas. Ainda não se sabe, por exemplo, se Lula disputará ou não – e até mesmo, sob que condições. Ele estará condenado e concorrerá amparado por liminares? Deixará o pleito pelo meio, caso seja sentenciado? A indefinição de Lula, que seria o polo aglutinador natural da esquerda, induz os demais partidos a buscar candidaturas próprias. Por isso, um passo essencial para reunir as chamadas “forças progressistas” seria, sinceramente, que Lula não concorresse. Isso liberaria espaço para a renovação de lideranças, a construção de uma nova aliança e a oxigenação ideológica. Há gente dentro do próprio PT, como o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad, que poderia encarnar essa nova esquerda e reagrupar as forças, ou Boulos, via PSOL. São apenas algumas das opções. Mas Lula se parece, cada vez mais, com um grande eucalipto que não deixa nada crescer ao seu redor. Se continuar assim, sairá de cena sem deixar nada em seu lugar.