LAVA JATO

Somos todos cariocas: guerra na Rocinha é culpa dos donos dos morros de Brasília

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Não há diferença entre a disputa de traficantes pelo controle de pontos de droga, e a briga de caciques políticos para dominar as bocas do Executivo, Legislativo e Judiciário

Somos todos cariocas: guerra na Rocinha é culpa dos donos dos morros de Brasília

(Foto: Divulgação/PMERJ/Página oficial no Facebook)

A guerra travada, desde domingo (17), pelo controle da Rocinha é uma metáfora do Brasil dilacerado por organizações criminosas de todos os tipos e tamanhos. Cada uma enfrenta as demais e coage a população em nome de seus próprios e mesquinhos interesses. Tão ou mais perigosas que as quadrilhas de traficantes, são as quadrilhas políticas travestidas de partidos que saqueiam o país sem a menor vergonha. Ao dominarem a máquina pública e os bilhões de reais que a movimentam, atuam como os gerentes de bocas de fumo – definem áreas de influência, armam escaramuças para abater adversários e ampliar seus domínios, declaram guerra contra quem os desafie. No meio desse fogo cruzado, estão os acuados brasileiros, incapazes de tocar uma vida minimamente normal.

Desde domingo, facções criminosas disputam o controle do tráfico na Rocinha. Os confrontos intensificaram-se ao longo da semana e atingiu seu ápice nesta sexta-feira (22), quando a Polícia Militar e o Bope decidiram entrar na área e caçar os líderes da bandidagem. A intervenção foi incapaz de controlar a situação e, agora à tarde, 950 homens da Polícia do Exército foram mobilizados para tentar colocar ordem no caos. Enquanto isso, mulheres são fotografas deitadas no piso de uma passarela para se proteger de tiros, estudantes não podem ir à escola, estilhaços de cartuchos atingiram uma adolescente, pessoas são impedidas de ir trabalhar, e ruas estão bloqueadas, desorganizando todo o trânsito da capital fluminense.

Isso soa familiar? Que tal isso: nos últimos anos, facções criminosas disputam o controle da máquina pública brasileira. Emboscadas são armadas contra adversários políticos, a fim de dominar qualquer rota de dinheiro público (orçamentos, emendas parlamentares, financiamento a empresas etc.) e tráfico de influência. Os confrontos intensificaram-se, quando uma força-tarefa composta pela Polícia Federal, pelo Ministério Público e por tribunais de primeira instância decidiram intervir e caçar os líderes da bandidagem. A intervenção, batizada de Operação Lava Jato, contudo, foi recebida pelos donos dos morros de Brasília com uma chuva de balas verbais e medidas parlamentares que miraram sua capacidade de ação, como as tentativas de amordaçar procuradores, policiais e juízes.

Somos todos cariocas

A aguerrida determinação com que as organizações criminosas travestidas de partidos políticos se defendem mostra como é fundamental, para elas, o controle das bocas do Congresso e da Esplanada dos Ministérios. Como ocorre entre poderosos chefões, cada máfia garante para si um naco de recursos públicos e prestígio político. Quando alguém ousa invadir o território de outro, o tiroteio verbal, legal e fisiológico é imediato.

Enquanto isso, o povo morre em filas de hospitais; é alvejado por bandidos pés-de-chinelo em roubos de celulares; perde o futuro de suas crianças, devido a um sistema educacional horrível; sofre com o desemprego, as dívidas, a falta de perspectivas, dois anos de recessão, projeções ridículas de crescimento neste ano, a burocracia, a má vontade dos servidores públicos, o abuso do poder econômico, o superfaturamento de obras, a infestação de corruptos nas estatais, o desvio de dinheiro para malas em apartamentos de Salvador, e as alianças políticas nojentas entre pessoas que querem, apenas, salvar sua própria barba da Lava Jato.

Diante dessas quadrilhas, parte da população já sonha com uma intervenção militar ou, no mínimo, com um governo forte (que, para ser sincero, vejo apenas como autoritário) que seja capaz de ocupar os morros de Brasília, prender os líderes das facções criminosas que dominam as bocas no Executivo, no Legislativo e no Judiciário, e trazer um pouco de tranquilidade aos brasileiros. O problema é que não há nenhuma garantia de que isso funcione. Basta ver o que ocorreu com as comunidades que receberam UPPs no Rio de Janeiro. Saíram os traficantes; entraram as milícias policiais resguardadas por políticos. Mais do que nunca, somos todos cariocas.

(Atualizado às 21h com o número mais recente de militares mobilizados para a Rocinha)