ECONOMIA

Temer adota a política do “pede pra sair” no Congresso

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Presidente, que já não esbanja apoio, não tem nada capaz de aglutinar novos aliados e entra no cheque especial da credibilidade

Temer adota a política do “pede pra sair” no Congresso

(Foto: Alan Santos/PR)

Na entrevista de duas páginas publicada neste sábado (05) pelo Estadão, Michel Temer mostra que esgotou sua capacidade de atrair aliados para votações importantes. Em vários momentos da conversa com o jornal, Temer dá sinais de que não forçará nenhum dos infiéis que votaram pela aceitação da denúncia de corrupção passiva, apresentada por Rodrigo Janot, a deixar a base aliada. Mas também não tem muito a oferecer para que fiquem. Em suma, a partir de agora, seguirá o princípio do “os incomodados que se mudem”.

Falando, por exemplo, da pressão do Centrão para que puna os infiéis, Temer afirmou que “os próprios [parlamentares] que não votam com o governo vão se sentir pouco à vontade de participar de um governo que não apoiam. Tenho a impressão de que vão acabar saindo.”

O mesmo vale para seu aliado mais precioso: o PSDB, que literalmente rachou ao meio na votação da denúncia contra o presidente, na semana passada, com 22 votos a seu favor, 21 contra e quatro ausências. “Quem estiver sentindo-se mal no PSDB sairá do governo, não tenho dúvida. Não estou dizendo o partido como um todo, porque lá há uma divisão muito grande.”

Cheque especial

Resumindo, um dos verbos mais pronunciados por Temer, na entrevista, é “sair”. Quem tiver que abandoná-lo, que o faça. O problema é que o peemedebista não está esbanjando força política, nem popularidade nas ruas. Faz tempo que está no cheque especial da credibilidade. Não pode se dar ao luxo de perder aliados, diante das tarefas que se dispôs a enfrentar – com a reforma da Previdência no centro do palco, e outras denúncias apresentadas por Janot na fila.

Ao fim e ao cabo, Temer não saiu fortalecido do arquivamento da denúncia; pelo contrário, provou de seu próprio veneno, ao tornar-se refém de uma base que só funciona à base de cargos e verbas. Não há nada que aglutine forças ao seu redor, mas muitos fatores que podem afastar as poucas que ainda estão com ele: a impopularidade das reformas e do presidente, a Lava Jato e as eleições de 2018.

Da boca para fora, Temer posa de estadista. Defende que o Congresso não precisa, necessariamente, ser a seu favor para apoiar suas propostas, porque elas representariam as medidas necessárias para tirar o país do sufoco e voltar a crescer. Lembrando das aulas de retórica, diz que há impopularidades e impopularidades. A de Dilma Rousseff seria causada pela sua incompetência e pela intolerância do povo com a corrupção que se alastrou nos governos petistas. A dele decorreria de sua disposição de promover as reformas necessárias, contrariando o caminho fácil do populismo e enfrentando interesses corporativistas. Trata-se de um discurso no melhor estilo “a História me reconhecerá”. É um pensamento reconfortante... mas só para ele.