POLÍTICA

Temer tem 14 dias para fazer o que não fez em um ano e meio: aprovar a previdência

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Mas que político, em ano de eleição, desejará aprovar um projeto patrocinado pelo presidente-vampiro? E a que preço?

Temer tem 14 dias para fazer o que não fez em um ano e meio: aprovar a previdência

Filme queimado: impopularidade de Temer pesa contra a reforma (Foto: Alan Santos/PR)

A partir desta quarta-feira de cinzas (14), o relógio para a aprovação da reforma da previdência pelo Congresso voltou a correr – e bem rápido. Tanto o presidente da República, Michel Temer, quanto o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, já declararam publicamente que o prazo máximo para que os deputados aprovem o texto e o despachem para o Senado é o fim de fevereiro. Após isso, o Congresso entrará em ritmo de eleição, com os parlamentares preocupados apenas em articular sua eleição ou reeleição. Trata-se, no entanto, de uma missão praticamente impossível. Temer terá de fazer aquilo que não fez em um ano e meio, desde que assumiu oficialmente o comando do país em 31 de agosto de 2016 (sim, já faz tempo!). E, pior – após o desfile da Paraíso Tuiuti, no grupo de elite do Carnaval carioca, sua imagem de presidente-vampiro foi escancarada. Que político em busca de votos desejará aprovar um projeto patrocinado por ele agora?

O secretário de Governo, Carlos Marun, responsável pela articulação política de Temer, jura de pés juntos que o governo já conta com os 308 votos de que precisa para passar a reforma na Câmara. Como se trata de uma Proposta de Emenda Constitucional, não basta uma, mas duas votações com esse placar para garantir o prosseguimento da tramitação no Senado, que também precisa aprová-la por maioria qualificada em dois turnos.

Já Rodrigo Maia, cada vez mais confortável na fantasia de pré-candidato do DEM ao Planalto, é acusado de fazer jogo duplo: da boca pra fora, apoiaria a reforma de Temer, mas não moveria um dedo por ela na prática. Oficialmente, Maia diz que só pautará o projeto para votação, se sentir que há condições de aprová-lo. Sua justificativa é que, para o governo e para o país, é melhor não votar agora, se não houver apoio, do que sofrer uma derrota que impeça o assunto de voltar à tona no curto prazo. Por fim, Maia cobra governadores e prefeitos a se engajarem na campanha pela reforma, pressionando as bancadas de seus Estados a seu favor.

Diga-me seu preço

Mas, como tudo em Brasília, sempre há uma última cartada: abrir os cofres públicos. Coincidência ou não, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou, em pleno Carnaval, o uso do fundo partidário para bancar campanhas neste ano. Com isso, os partidos contarão com mais R$ 888 milhões para gastar na “festa da democracia”. Essa dinheirama será somada aos R$ 1,7 bilhão do fundo eleitoral, criado especificamente para financiar candidaturas, após a proibição de doações de empresas. Nada impede que Temer, nos próximos dias, determine a liberação de mais emendas parlamentares em troca de votos escorregadios pela reforma.

Por último, o destino de Cristiane Brasil será um bom termômetro do futuro da reforma e do agonizante fim de mandato de Temer. Faz 49 dias que o Ministério do Trabalho não tem um ministro titular. Faz 42 dias que Cristiane Brasil foi indicada para o cargo por seu pai, o mensaleiro e presidente nacional do PTB Roberto Jefferson. Sua nomeação está nas mãos da ministra Cármen Lúcia, presidente do STF. Qualquer governo sensato já teria descartado Cristiane há tempos, mas Temer resiste teimosamente, porque é refém dos votos do PTB que Jefferson promete entregar para aprovar a previdência. Se desistir, arrisca-se a perder o apoio da legenda. Se insistir, mostrará que é tão fraco, que qualquer um poderá fazer a festa e nomear quem quiser para o governo. Agora, se Jefferson entregará os votos, ou não, só Deus sabe, mas é preocupante que um assunto dessa importância para o futuro de todos os brasileiros seja decidido na base do toma-lá-dá-cá.

Ao fim e ao cabo, Temer pode sair com muito menos do que o já pífio capital político com que entrou nessa briga: sem apoio parlamentar, cercado de oportunistas que o chantagearão até 31 de dezembro em troca de sua permanência no cargo, sem nenhum resquício de apoio popular, sem nenhuma influência na eleição de seu sucessor, e sem nada a oferecer ao país, a não ser provas de que não mudamos nada desde o impeachment de Dilma Rousseff. E tudo isso, nos próximos dez intermináveis meses.